LUTE

Combata o bom combate da fé. Tome posse da vida eterna, para a qual você foi chamado e fez a boa confissão na presença de muitas testemunhas - 1 Timóteo 6:12

SE DEIXE TRANSFORMAR

Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus - Romanos 12:2

ACEITE O SACRIFÍCIO

Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna - João 3:16

VÁ NA CONTRA-MÃO

Converta-se cada um do seu caminho mau e de suas más obras, e vocês permanecerão na terra que o Senhor deu a vocês e aos seus antepassados para sempre. Não sigam outros deuses para prestar-lhes culto e adorá-los; não provoquem a minha ira com ídolos feitos por vocês. E eu não trarei desgraça sobre vocês - Jeremias 25:5-6

REFLITA A LUZ DE JESUS

Pois Deus que disse: "Das trevas resplandeça a luz", ele mesmo brilhou em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo - 2 Coríntios 4:6

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16 de maio de 2011

APOSTATA DA VIDA

Os dias tem sido dominados por uma luz amarelada. A atmosfera parece impregnada por poeira, e as pessoas todas parecem-se com inimigos. A vida é um deserto e tudo é áspero, seco e abrasivo. Bocas belicosas ferem minha alma com lanças invisíveis. Cordas que ninguém pode ver me atam à rocha nua de um chão imundo. Estou imobilizado.

As pessoas cospem em meu rosto, o sol castiga a minha pele, meu ódio só cresce dia após dia sem ter um alvo definido além de tudo o que me é externo. Odeio tudo o que não sou eu, pois tudo o que não sou eu me odeia em dobro.

Formigas picam minha carne, escorpiões ferroam os meus pés. Não há água que alivie minha sede ou pão que diminua minha fome. Os dias tornam-se longos e as noites curtas. O calor castiga meu corpo e minhas feridas são cobertas por moscas atraídas pelo odor de carne podre.

Algo se debate dentro de mim. Não é vontade de reagir, e sim de se entregar. Não é uma revolta que leva a mudança, mas sim uma revolta que leva a desistência e a estagnação. O que domina meu mundo interno não é esperança mas sim desespero.

Não há solução para meus problemas existenciais além daquela que está escondida dentro de mim mesmo. Não há analgésico para a minha dor a não ser aquele que minha alma pode fabricar. Não há alívio para meu cansaço a não ser aquele que advém da forma com que lido com o mundo. Não há esperança para o homem além daquela que sua mente pode compreender, assimilar e promover.

Não há para o homem nada de bom além daquilo que sua mente lhe permita perceber ou pensar. Infelizmente, minha mente parece estar quebrada.

29 de setembro de 2009

MALDITO BLOQUEIO

Novamente me vejo diante do bloqueio. Não há nada mais frustrante do que isso para um escritor. Você tem uma massa enorme de coisas passando pela sua cabeça, prontas para serem cuspidas para fora, mas você simplesmente não consegue. É como uma prisão de ventre intelectual, que dói e incomoda.

Já estou há tanto tempo ruminando esta história em minha cabeça que ela já mudou de ruma uma dezena de vezes. Novos personagens ganham importância e velhos protagonistas tornam-se meros coadjuvantes. O tempo passa e tudo se altera em minha mente. O tempo passa e não consigo escrever meu livro.

Se é por causa do remédio eu não sei. Mas sei que me sinto patinando na lama, sem sair do lugar, e já há bastante tempo.

27 de setembro de 2009

HÁ DOIS DIAS ESQUECIDA

As vezes é mais fácil esquecer
Abandonar os outros e se dar bem
Porém, não é o que espero fazer
Nem ao certo sei se é o que quero dizer
Vai, onde entornam-se as dores lânguidas
Interna ao teu olhar humano, lambe a tua boca
Vem ao meu prazer, tocar a mim com você
Sorrir, chorar, gemer, gritar ao se sentir
Cantando a dor de existir
E não temer o que mais quer
Era assim, somente aos prantos
Que me faço ouvir
Tremendo, insano ao anoitecer
Criar a mim, alguém
Estranho, sinto o gosto do pecado ao teu lado
Sinta, bem dentro de você
O prazer que queima o interior
Sozinho vou sem para trás olhar
Distante daquele sonho que esperava gozar
Caminhar, se distrair
Ouvir desgraças e sorrir
Construir para destruir
E só então lembrar desta canção
Esquecida como agora estou
Amassada em seu papel
Distraído em minha dor
Somente para recriar o meu próprio horror

originalmente escrito em 1998

26 de setembro de 2009

SOLIDÃO

A solidão é morte em vida, é infortúnio em sua glória
É a ambigüidade pura da vida por si só
Por que a vida também é somente uma
Assim como nós somos somente um
E basta uma ponta de esperança para as lágrimas caírem
E somente uma dor intensa lhe fará ver que não vale a pena
Por que no final alguém sempre se magoa
E já nos basta padecer a tanto tempo
Embora achar outra pessoa seja algo singular
A expectativa do encontro é sempre dolorida
E quase sempre constatamos: estávamos errados
E quase sempre choramos: estávamos enganados
E existem dores que nem o tempo pode acalentar
E a solidão só os intensifica cada vez mais
Forte como a própria união, é o fim certo a todos
Por que é maldição e não bênção
Ser sozinho é triste porque sozinhos não somos ninguém
E na união do amor entre homem e mulher
Existe uma força incrível que é o oposto de tudo o que conhecemos
O amor faz a possibilidade da solidão valer a pena
Se tiveres um só minuto de amor intenso
Se dê por satisfeito, pois já sabes o que é viver
Se seu sonho se tornou real, dê-se por feliz
Pois não existe nada mais importante que não estar só
Somente uma coisa realmente importa:
Não estar só
Estar acompanhado de quem se gosta
Não existem rejeições fortes demais
Não existem tardes vazias ao extremo
O que temos é a nós mesmos, e nada mais
E tudo o que sonhamos pode ruir sobre nossos pés
Pode demorar um dia ou uma vida
Mais cedo ou mais tarde acontece
E mesmo que você se sinta só e rejeitado
Não se preocupe: mais vale se lamentar por coisas feitas
Do que por sonhos não realizados


originalmente escrito em 1999

25 de setembro de 2009

ARDIL

Durante 12 anos a espaçonave Kashimire, o orgulho da humanidade, navegava solitária pela vastidão da galáxia, visitando os mais remotos locais. Provida de um gerador de dobra tão avançado quanto poderoso, ela podia saltar de um canto a outro do espaço conhecido sem a necessidade de reabastecimento ou paradas. A bordo, um solitário astro-físico era sua única tripulação.

Lazarus Quaid tinha diversos motivos para sentir-se solitário. Não apenas dentro do expoente da engenhosidade humana que aquela espaçonave era. Quaid tinha sérios motivos para crer que era o último ser humano vivo.

Há 12 anos atrás, em seu último retorno à Terra, ele havia encontrado o planeta completamente vazio, com sinais de conflitos em lutas por toda parte. Não havia como saber exatamente o que ocorreu durante sua ausência de 3 anos, onde cumpria uma missão de grande importância realizando a vistoria in loco do 15º planeta extra-solar com chances de se tornar a primeira colônia terrestre.

Sem ninguém para recebê-lo, Quaid se afundou em desolação, pensando quão triste era o fato de que, após milhares de anos, a humanidade finalmente poderia realizar um de seus sonhos mais antigos só agora, em sua extinção. O planeta vistoriado não só era habitável como possuía uma biosfera rica em nutrientes e oxigênio, além de água líquida, temperaturas amenas e vegetação abundante. Mas isso não tinha a menor importância agora.

Quaid passou 2 meses no planeta Terra em busca de sinais de vida humana. Estranhamente não encontrou um cadáver sequer. Não havia como obter informações sobre o que havia ocorrido pois todos os sistemas de notícia e informação encontravam-se severamente avariados. As cidades estavam abandonadas, e tanto a vegetação como os animais selvagens já estavam adiantados em sua ocupação das ruas, prédios e casas. A Terra era selvagem uma vez mais, e havia naquilo uma beleza mórbida de paz.

Quaid não gostava de se lembrar daqueles dias na Terra, porque após meses de buscas inúteis, acabou ficando catatônico. Chegou à beira da morte por inanição dentro de sua velha espaço-nave, a Orion Hawk 7. Mas algo dentro dele não o permitiu morrer. Ainda tinha muito o que ver e descobrir. “Ainda não quero morrer”, pensou, fraco após dias após sem alimentação. “Ainda existe um humano para viver, e sonhar”.

Saindo da órbita terrestre Quaid encontrou a Kashimire intacta, atracada à grande doca espacial que ficava em órbita geo-estacionária sob o Pacífico. O local estava mais silencioso do que qualquer outro que ele havia visitado. Não haviam corpos, nem sinais de luta. Era como se todos tivessem simplesmente desaparecido.

Os sistemas automáticos das instalações ainda funcionavam com exatidão, e acoplar sua nave ao complexo fora extremamente fácil. Investigando os registros no diário da estação, viu que as últimas entradas eram relativas a mais de dois anos atrás. No último dia havia o registro de uma nave militar que se atracaria para reparos. Depois disso, nenhuma informação havia disponível.

Após alguns preparativos, Quaid abandonou as fronteiras terrestres a bordo da Kashimire no dia 27 de agosto do ano de 2487. Olhou o planeta morto uma ultima vez, e então mirou seus olhos para frente, vislumbrando as estrelas assim como os humanos o faziam desde os tempos mais remotos. Com a diferença de que agora, de certa forma, ele poderia tocá-las.

Durante todos aqueles anos Quaid viu coisas que julgava que nunca veria em sua vida. Vislumbrou corpos celestes sugados por buracos negros, formações de super-novas que destruíam sistemas estrelares inteiros, estrelas binários e planetas gasosos se desfazendo em colisões planetárias indescritíveis, ocasionadas por desequilíbrios gravitacionais de milhões de anos. Ele vivia pelo amanhã, e não tinha nenhuma esperança de encontrar outro ser humano em vida.

Certo dia, sem se dar conta, Quaid acabou retornando a um ponto da galáxia aonde já havia estado. Ele havia concebido uma fórmula matemática que proporcionava saltos aleatórios pela galáxia conhecida sem repetir locais visitados, o que lhe daria lugares a visitar por milhares de anos.

O fato é que ele havia estado ali não com a Kashimire, mas sim a Orion Hawk 7. Quaid estava diante do planeta que havia vistoriado ha mais de 12 anos atrás. Esboçou um sorriso, e considerou a possibilidade de voltar a caminhar por aquele lugar. Sem compromissos ou esperanças, decidiu ir a superfície.

Embicou a Kashimire em ângulo de reentrada e a pousou em uma planície estável recoberta com capim macio no hemisfério sul do planeta, que era semelhante à própria Terra em tudo, menos na disposição continental e na proporção terra seca/água. Lá, a água exposta não era tão abundante quanto na Terra, mas haviam enormes lençóis freáticos, com muitos pontos aonde a água pura e cristalina brotava do solo.

Já na superfície, Quaid sentiu a luz solar tocando seu rosto de uma maneira agradável. O azimute que a estrela apresentava no céu lhe dizia que estavam no período da manhã do que devia ser o outono naquela região do planeta. Caminhou pelo lugar com um prazer que há muito tempo não sentia. Considerou nadar em um lago que havia próximo ao local. Sua beleza natural era a coisa mais próxima da perfeição que ele jamais vislumbrou antes.

Sua paz, porém, fora interrompida por um sinal de alerta da Kashimire, obrigando-o a desistir do lago. Voltando à espaçonave, ficou quase tão abalado quanto 12 anos atrás. A Kashimire informava a existência de estruturas não naturais no hemisfério norte do planeta após sua varredura, proporcionada por 18 sondas atmosféricas que lançou automaticamente ao entrar na atmosfera.

Quaid sabia que, por estruturas não naturais, devia-se entender qualquer coisa que não tivesse origem geológica ou biológica, como montanhas e vegetação. Algum animal nativo poderia ter construído um abrigo grande o bastante para chamar a atenção, como os diques que os castores construíam na Terra. Mas também poderia ser algo produzido por uma mente humana.

Quaid não queria dar continuidade ao seu pensamento. Não queria trabalhar com suposições, mas sim com fatos. Não pensou duas vezes para levar a Kashimire até o local, para ver a tal estrutura com seus próprios olhos.

Lá chegando, não podia acreditar no que via. Pousou a nave a vários metros de distância, e foi até aquilo caminhando sem acreditar, porém, de arma em punho. Diante dele levantava-se, no topo de uma pequena colina coberta de grama, um casebre de madeira e pedra, com chaminé e até mesmo uma cerca. Pelas janelas, Quaid observou o interior do local, e viu móveis velhos dentro dele. Entrou. O lugar parecia desabitado há muitos anos, com uma grossa camada de poeira recobrindo tudo.

Sem conseguir assimilar aquilo com facilidade, Quaid ficou mais estupefato ainda vendo que, sob uma mesa no canto do casebre, haviam 5 objetos. Um pente, uma escova de dentes, um espelho, uma faca e... um controle remoto. Já há muito tempo que os controles-remoto haviam deixado de existir na Terra, sendo que o próprio Quaid só os havia visto em museus.

Pegou o controle nas mãos, limpando-o com cuidado. O botão de ligar/desligar era vermelho e grande. Foi natural apertá-lo para experimentar a sensação. Antes não o tivesse feito. Recebeu instantaneamente uma descarga que o fez perder os sentidos rapidamente.

Quando acordou, viu-se nu e preso pelas mãos, pendurado em um recinto escuro que não demorou para identificar como sendo a área de cargas de uma espaçonave mal cuidada. O local era estranhamente familiar. Uma comporta se abriu depois de alguns minutos, e Quaid sentiu o pavor mais terrível percorrer sua espinha com uma fúria incontrolável de adrenalina e outras reações metabólicas. Um ser humanóide horripilante se arrastou para dentro do lugar, com seus olhos vermelhos de pupilas dilatadas, e uma boca cheia de dentes afiados como a boca de um verme intestinal macabro.

A criatura o observou por alguns instantes de maneira apavorante, totalmente imóvel. O silêncio só era quebrado por sua respiração pesada e pelo som das batidas do coração de Quaid. A criatura então se moveu com movimentos curtos, rápidos e de baixa amplitude, ficando mais ofegante ainda, salivando em demasia. Mesmo magra, parecia totalmente bestial. Começou a falar com uma voz sussurrada e quase demoníaca, e para espanto de Quaid, na mesma língua que ele.

- O último dos humanos! Enfim posso me alimentar novamente...
- Se alimentar novamente?! O que diabos é você?
- Compreendo que não saiba o que sou... poderia dizer que sou um humano assim como você? Não... já há muito tempo isso me foi tirado...
- Humano?
- Eu conheço você e sua história, Dr. Lazarus Quaid. Mas você não me conhece, tão pouco sabe o que sou. Não estava na Terra quando aquilo aconteceu.
- O que?
- A estupidez humana, o que mais? Sou o resultado de um projeto secreto dos cartéis do sul. Sou um ser humano manipulado com vacinas genéticas para me tornar algo mais eficiente em campo de batalha. Eu era um soldado, assim como muitos outros.
- A Terra... você tem algo a ver com o que aconteceu na Terra?
- Sim, mas não seja tão ingênuo, Dr. Eu não fui o único. Eramos mais de 15 milhões. Fomos soltos no meio do território inimigo, onde começamos a comer todos os que víamos pela frente, até os ossos. Seja lá o que tenha ocorrido conosco, não conseguíamos mais sobreviver com outro tipo de alimento a não ser carne humana. Em poucas semanas exterminamos os humanos no território inimigo, destruindo toda sua infra-estrutura de informação, para evitar que eles se organizassem. Quando percebemos que morreríamos de fome, usamos aviões e barcos, e nos alimentamos daqueles que nos criaram. Em meses comemos cada ser humano do planeta. Quando eles terminaram, fomos em busca dos poucos que restavam nas estações orbitais, na Lua e em Marte fingindo sermos humanos. Muitos dos nossos já haviam morrido de fome neste meio tempo. Poucos de nós conseguimos sobreviver para nos fartar com os humanos amedrontados que haviam sobrado.
- Meu Deus... por isso não haviam corpos!
- Como disse, comemos até os ossos! Nossa fome é horrível. Por fim, todos os que eram como eu pereceram. Apenas eu sobrevivi.
- Como?
- Eu era falho e fraco. Diferente dos demais, algo em mim ainda continuava humano. Meu sistema digestivo ainda podia digerir alguns alimentos, mas não totalmente. Não sou capaz de absorver os nutrientes de maneira eficaz. Estou vivendo de ração há 4 anos, desde que meu estoque de carne humana terminou.
- E como me achou aqui? - disse Quaid, tentando se livrar das amarras sutilmente.
- Fui até as docas sob o Pacífico. Quando deixei a doca meses antes de seu retorno à Terra, havia um depósito de carne humana de alguns poucos irmãos que resistiram. O busquei na esperança de encontrar algo para me alimentar. Não achei nada, mas percebi que a bela e grande Kashimire não estava mais atracada, e no lugar dela, havia a sua nave... esta nave!
- A Orion Hawk 7... estamos a bordo dela?!
- Sim... e nos bancos de dados dela, vi todos os registros sobre este planeta. Pensei que seria uma questão de tempo até que você ou algum humano que tivesse escapado viessem para cá, então decidi viajar até aqui. E esperei, preparando o ardil no qual você caiu.
- Ardil? Você fala do casebre...
- Sim... mas falo principalmente daquele velho controle remoto. Eu sabia que a curiosidade do ser humano levaria alguem até o casebre, mas apenas a estupidez poderia fazê-lo cair em minha emboscada. O que melhor para despertar a estupidez humana do que um botão grande e vermelho, Dr. Lazarus? Um botão que praticamente pede para ser apertado!
- ...
- Veja, estou enfraquecido demais para conseguir lutar contra um humano e pegá-lo com minhas próprias mãos, como fazia tão facilmente no passado. Tive que recorrer a este estratagema. E eu fico muito, mas muito feliz mesmo que ele tenha funcionado!

- A criatura urrou de maneira grave e bestial, abrindo sua boca pútrida e deixando escorrer dela uma saliva grossa e esbranquiçada como leite estragado. Avançou em direção a Quaid, que tentava se soltar desesperadamente sem nenhuma eficiência. Percebia agora que aquele monstro de fato havia recebido treinamento militar, porque quanto mais ele tentava se soltar, mais apertado o nó em volta de seus pulsos ficava.

Foi então que ele soltou um grito horrível devido à mais intensa dor que já sentira em toda sua vida. A criatura cravou seus dentes, afiados como farpas de aço, em sua coxa esquerda. A criatura havia arrancado um pedaço considerável de carne, e o sangue brotava fartamente da ferida exposta.

A criatura fechou os olhos deliciando-se doentiamente com o sabor da carne de Quaid, gemendo de prazer ao mesmo tempo em que derramava algumas poucas lágrimas dos olhos. O sangue escorria de sua boca e caia sob seu peito e sua barriga enrrugadas, que tinham a pele repuxada, grossa e ressecada. Quando se precipitou contra Quaid uma vez mais, a criatura lhe arrancou um pedaço ainda maior da mesma coxa. A dor fez com que Quaid perdesse os sentidos uma vez mais, e ele se viu cercado pela escuridão. Pode ouvir o som da criatura mastigando sua carne, mas este foi ficando cada vez mais baixo, até desaparecer.

Quando despertou, Quaid ficou espantado por ainda estar vivo. Estava deitado, atado a uma mesa cirúrgica de metal, e sentia uma dor lascinante na coxa devorada. Viu com dificuldade que havia uma sonda venosa atada a seu braço, e pensou que um milagre havia ocorrido. Quem sabe, alguém tivesse aparecido e lhe salvado no último instante...

Ele então ouviu a porta daquele local se abrir e alguem entrar. Quaid gritou de pânico novamente e chorou de desespero e agonia ao ver que era a mesma criatura, com o rosto ainda todo sujo com seu sangue. Ela ria e parecia mais vivida do que antes. Sua pele estava melhor, assim como sua saliva estava mais transparente. Suas pupilas não estavam mais dilatadas, e ele parecia ter experimentado uma melhora significativa de sua saúde.

Quaid conseguiu olhar para sua perna e, horripilado, viu que a criatura havia devorado quase que toda a carne da coxa para baixo. Mas percebia que, de alguma forma, a carne estava se regenerando, e rapidamente. Olhou então para a criatura, que lhe disse:

- Não pense que será tão fácil assim, Dr. Lazarus. Enquanto sentia fome na viagem até aqui, tive muito tempo para pensar sobre tudo isso. Você provavelmente é o último ser humano vivo, e se eu te comer de uma vez, te matando no processo, vou ficar sem alimento.
- ... o que você está fazendo!!! - disse Quaid com os dentes cerrados, devido à dor da regeneração e ao pânico diante de sua situação.
- Estou te alimentando com a comida que não posso comer por meio desta sonda venosa, que me manteve vivo até aqui ao me proporcionando uma quantidade mínima de nutrientes para sobreviver... mas ela vai lhe nutrir muito melhor do que a mim, posso lhe garantir isso. Também estou regenerando sua carne, tendão e nervos com uma droga bastante complexa que encontrei em minhas andanças pelo planeta Terra. Este catalizador metabólico é uma tecnologia médica de reconstituição de tecido que estava guardada a 7 chaves nos laboratórios de uma grande indústria farmacêutica a pelo menos 150 anos. Como pode ver, era boa demais para ser posta no mercado, mas eu quero te dar o melhor! Você estará novo em folha em menos de 5 horas, quando então poderei te comer mais um pouco!
- Não não não não não não... - dizia Quaid, já perdendo sua sanidade.
- E depois de comê-lo de novo, vou te alimentar e curar novamente, para comê-lo de novo, e de novo, e de novo... até aonde eu precisar ou você aguentar. E acredite: vou dar o meu melhor para que você aguente por muito tempo...

Quaid havia entrado em choque uma vez mais. A criatura não se importava, desde que ele continuasse vivo. Lazarus Quaid nem mesmo gritou de dor quando a criatura, ainda faminta, não conteve sua fome furiosa, e visivelmente descontrolada, começou a devora sua outra coxa, que se regenerava a cada mordida dada. Seu corpo permanecia vivo, ao menos por enquanto. Mas sua mente, cuja imagem daquele maldito controle remoto foi a última coisa que processou, morrera bem ali, na enfermaria da Orion Hawk 7.

Originalmente escrito em 16/02/2008

24 de setembro de 2009

LETARGIA

Letargia angustiante é esta que sufoca meus pensamentos, que drena minha emoção ao ponto de me deixar completamente nu entre centelhas de ódio e dor infinitas. O trauma é tanto que tenho medo agora de deixar o pequeno casulo que é minha vida para adentrar no espaço aberto que existe fora dela, um mundo de agonias púrpuras em que a desordem governa com mão de ferro, onde tudo é confuso como as palavras que lhe declamo agora.

Não, lágrimas não são bem vindas. Nem tanto desespero cético em relação aos outros penitenciados neste mundo grosso e escasso de palmas para coisas tão grandiosas, como o simples fato de viver e ser.

Trucidado por idéias que não posso explicar ao certo, tento desabafar em prosa toda a minha fúria em relação a todos os que em mim botaram fé. Minha mente, embriagada pelas mãos ágeis da sabedoria, me nega fogo quando mais necessito dela, agora, em que quero entender ao certo o que estou falando.

Não tenho idéia de como ou por que estou falando tanto, mas compreendo minha dor contida em um único corpo humano, o meu, que é pequeno para tantas confusões e erros seguidos. Jamais, jamais será como era antes minha vida incerta em ser eu mesmo. Nunca mais serei como em minha antiga infância onde eu podia sair de meu corpo para brincar, e só por isso já ser eu mesmo, só que ao mesmo tempo outro eu.

Sim. Aos poucos vai ficando claro. Uma alma esperta me deu o dom de descrever tal conflito interior, que se passa dentro de cada um de nós. Uma luta titânica entre monstros seculares que antes eram escravos, e agora são mestres. Sim, sentado ao pé de uma cerejeira eu posso vislumbrar uma folha, fina e delicada, que caí aos poucos, para enfim tocar o chão e apodrecer até nada mais restar.

Somos todos folhas mortas no chão. Somos frutos invioláveis, produtos de um poderio incompreensível de frases aleatórias que nos criaram. Carro, árvore, bola, jamanta...
Nada faz sentido, sendo que nós mesmos somos o sentido de tudo. Não somos o que deveríamos ser. Somos apenas projetos inacabados de pessoas sérias que podiam, um dia, voltar a ser nós mesmos. Mas talvez elas já tenham voltado a ser nós mesmos e nós não temos como saber, por que elas, na verdade, somos nós, mas não somos nós realmente.

Nós somos apenas o que somos e pronto. Nada mais, nada menos. Só isso. Somos almas feridas em busca de algo que ainda não sabemos ao certo. Somos escravos de nossas almas, somos escravos de nós mesmos. Escravos, por que estamos todos presos dentro de nós mesmos, dentro de nossos egos inflados pela sociedade, a mesma sociedade que deturpou nosso direito de sermos nós mesmos.

É, é isso. Somos o fino fio condutor de nossas próprias fraquezas. Somos o vazio e eterno Universo em expansão e morte simultâneas. Não somos nada além da nossa imaginação. Somos um jovem e belo cadáver que não faz outra coisa desde que nasceu além de morrer, pouco a pouco, dia-a-dia. Confusos dentro de nossas próprias idéias metafóricas de vida e morte, dentro de um limitado ponto de vista totalitário, gabando-nos de sermos o que somos. Assassinos. Matamos todos os dias, e a todas as horas. Matamos o que há de mais precioso em uma pessoa, suas idéias, suas fantasias.

Matamos a nós mesmos quando nos privamos de pensar em nossos próprios sonhos, assim como a pessoa que sonha estar sonhando. Somos todos estes vulcões em erupção visível que queima a tudo o que esta por perto. Somos todos insanos em nossos pensamentos mais secretos e íntimos. Não passamos de criaturas desajeitadas envolvidas em uma grande besteira que julgamos ser a mais importante das missões.

Chore. Chore. Chore por que enfim você compreendeu que no fundo não passa de uma pessoa. Que você pode fazer coisas, que tudo pelo que lutar vale a pena. Crie asas, e voe para longe, terna criatura terrestre que chamamos de ser humano. Vá embora para longe e crie sua vida de acordo com as tabulas sagradas que você adotou como leis.

E de noite, sonhe mais uma vez com a loucura imersa que se esconde em sua mente, mas que ora ou outra vai se libertar e lhe fazer ser aquilo que você nunca deixou de ser.


escrito originalmente em 1997

DEPREMONIÇÃO

Estranho momento de agonia, dor e pranto
Sofrida sina de viver sem nenhum acalanto
Sua causa me intriga, não és presença
Tua origem me fascina, és ausência


Não és nem boa, nem ruim
És um nada completo, duro como marfim
Tu és todo espaço, não ocupação
Tu és a distrofia do meu coração


Da luz você me oculta, da morte me aproxima
À loucura tu me levas, ao suplício me encaminha
Soluços mudos de uma dor sem explicação
Lágrimas nulas de um culpado sem perdão


Havia aqui outrora uma vontade de viver
Não importava a hora, bastava crer
Agora a morte pousa em mim a sua mão
E com ela à vida me diz não

25 de agosto de 2009

AGONIA MODERNA

Eu não posso usar minha criatividade sob pena de não ser compreendido. Eu não posso falar o que penso porque minha opinião não interessa a ninguém além de mim mesmo. Eu não posso me comportar naturalmente porque o meu natural é amoral perante um mundo imoral. Eu não posso fugir porque não tenho para onde ir. Eu não posso enlouquecer porque se não vão me prender.


A vida é um eterno “se adaptar”. Mas estou cansado de mudar. Sou estrutura rígida, não maleável. Sou um tronco seco e não um ramo tenro. Sou concreto seco e não massa de modelar. Quero mudar o mundo ao fazer o mundo deixar de mudar.


Sou forçado a seguir o que os outros pensam porque eu mesmo não penso nada. Não que eu não pense, penso sim senhor. Mas meus pensamentos sempre são pensamentos diferentes dos demais, e todos defendem suas misérias intelectuais de forma tão sagaz que eu não consigo me animar a lutar a batalha das ideologias, e derramar meu rico sangue ideológico por alguma causa.


As pessoas me assustam, vivo com medo, até de mim mesmo. Não gosto de ser como sou. Mas como vou mudar o que é imutável? Como posso deixar de ser eu mesmo? E como sobreviver sendo quem eu sou?

25 de janeiro de 2009

BLOQUEIO CRIATIVO

Bloqueio Criativo
Uma das piores coisas que eu sinto no meu dia-a-dia é um bloqueio criativo. Estou tendo isso neste instante, com meus trabalhos em meu livro. É frustrante você ter um monte de idéias na cabeça e não ter um meio rápido e coeso o bastante para vomitar tudo o que está em sua mente de uma vez por todas em alguma mídia qualquer.

Mas preciso ter calma. Eu havia me dado um prazo indefinido para este livro, e não posso ficar me cobrando muito, pois sei que vou acabar desanimando se ficar nesta paranóia por muito tempo. É preciso dar tempo ao tempo, respirar fundo e ir com calma e sempre. Imagine só se Deus tivesse tido bloqueios como os meus durante o ato da criação...

"E no primeiro dia, enquanto criava a luz, Deus teve um bloqueio criativo, e ficou pensando qual devia ser a cor da luz. Percebeu que nem mesmo cores haviam, mas resolveu o problema fazendo a luz conter todas as cores dentro dela, podendo ser fragmentada por prismas... mas não existiam prismas ainda, então ele teria que criá-los criando algo chamado matéria... que exigiria um conjunto enorme de leis físicas que regulamentariam seu comportamento... mas do que adiantaria criar um Universo tão maravilhoso e organizado se não tivesse ninguém para vê-lo, apreciá-lo e dizer algo como 'Que Universo batuta! Foi você quem fez ou comprou pronto?'? Então Deus achou aquilo muito complicado e resolveu dar um tempo na criação, e foi espairecer a mente indo ver um pouco de TV e depois jogar uma partida de Poker com alguns anjos. Mas isso era chato também, porque Ele sempre vencia...".

P.S.: Me inscrevi no site do Pokerstars, é divertido, mas obviamente só estou jogando com fichas de dinheiro de mentira. Jogar com dinheiro de verdade seria loucura.

29 de dezembro de 2008

MAIS SOBRE A CRIAÇÃO DE UM NOVO MUNDO

Criar um mundo imaginário parece ser uma tarefa das mais desafiadoras. Recentemente falei, em outra postagem, que eu estava escrevendo um livro, ou mais propriamente, fazendo os estudos para escrevê-lo. Continuo nesta árdua tarefa, que se mostra mais complexa e interessante a cada dia.

Escrever uma história de fantasia é muito mais complicado do que escrever uma história que se passe, digamos, em nosso mundo. Conhecemos nosso mundo. Sabemos que se jogarmos um objeto para cima, ele cairá. Temos alguma noção, mesmo que instintiva, de como as coisas funcionam em nosso Universo. Escrever uma história que se passe nele é, portanto, mais fluido e natural.

Já em uma história fantástica as coisas podem se complicar. Como disse antes, quero escrever algo de boa qualidade, e não mais um texto mequetrefe desdes que eu tanto escrevi no passado. Li em vários lugares que o mais importante para um escritor iniciante é escrever histórias que se passem em lugares conhecidos, para que a trama não pareca artificial demais. Isso é impossível em uma história fantástica, pois tais lugares simplesmente não existem. Ou será que existem?

Pensei um pouco na questão e descobri, de maneira lógica, que tais mundos existem. Eles ficam DENTRO de nós. Visitamos estes lugares ao ler um livro. Digo “ler” porque em filmes estamos tendo uma noção pronta e imutável daquele lugar, sem espaços para co-criações. Considero o ato de ler uma co-criação, pois a pessoa é obrigada a imaginar as coisas, e a imaginação de duas pessoas podem criar mundos totalmente diferentes, mesmo que estes mundos sejam o mesmo descrito em um texto.

Podemos visitar da mesma forma lugares reais e alterá-los com o uso de nossa imaginação (Tolkien morava em uma região aonde haviam antigas chaminés que, dizem, o inspiraram na questão de haver na Terra Média Duas Torres de poder, Orthack de Sauron e Isengard de Saruman). Podemos neste caso visitar o lugar realmente por meio de uma viagem, voltando a ele quando bem entendermos por meio de novas viagens ou simplesmente por meio de nossas recordações. O importante é que, não falando apenas de locações mas sim de tudo, toda boa história que se preze deve ser original na maior quantidade de elementos possível.

Já li de alguns estudiosos em mitologia que existem apenas 4 ou 5 histórias realmente originais na cultura humana, e que todas as milhares de milhões de outras histórias ou são reinterpretações, releituras ou combinações destas primeiras. Assim, é impossível criar algo 100% original, pelo menos assim parece.

Com esta necessidade de originalidade em mente, soube que não podia me basear em um mundo já existente. Devia construir meu próprio mundo, mesmo que eu o construísse usando peças de diversos outros lugares. Posso construir uma casa criativa e inovadora por exemplo, mas ela é construída com tijolos iguais a aqueles usados em milhões de outras casas.

Assim decidi por criar um mundo particular, de tal forma que eu o conhecesse como a palma de minha mão e pudesse colocar meus personagens e minhas tramas neste espaço de maneira tão natural e encaixada quanto possível. E assim, transformar este mundo em um personagem ativo da história, da mesma forma com que Tolkien fez com sua Terra-Média, que está presente a todo instante com uma presença mágica, sutil mas absolutamente ambientalística e fundamental.

Criar um mundo do zero, com suas regras de funcionamento (físicas, políticas, religiosas, tecnológicas, etc), culturas, etnias, geografia, paisagens e territórios é trabalho árduo, mas estranhamente gratificante. É uma experiência que recomendo, como exercício criativo, e que sei de antemão que irá gerar um produto imperfeito: por mais que um pessoa se esforce, é improvável que ele consiga descrever um mundo tão complexo quanto o real, mesmo porque não deve ser este o objetivo final de uma história fantástica. O ideal é que este mundo não seja árido de detalhes, tão pouco inundado. É necessário equilíbrio, e o equilíbrio, como vi, é simetria perfeita, e portanto de difícil obtenção e instável manutenção.

Estou lendo muita coisa estranha ultimamente, de livros de física a história da arte, passando por história militar, geologia, astronomia, astrofísica e misticismo. E, obviamente, mitologia e simbologia. O mais engraçado: minha história não trata de nenhum destes assuntos... todos apenas me fornecem os tijolos para construir o mundo ande ela se desenrolará.

1 de dezembro de 2008

CRIANDO O UNIVERSO

Como escritor, sou frustrado quanto a minha própria obra. Não sei quantos escritores amadores como eu tem este problema de começar diversas histórias, desenvolver personagens e tramas mas, de uma hora para outra, abandoná-la e nunca terminá-la.

Perdi a conta de quantas histórias iniciadas e nunca terminadas já escrevi. É mais fácil contar aquelas que eu terminei: uma! E já se vão bem mais de 10 desde então.

Contos curtos não podem ser computados. Nem poemas, que eu não escrevo já há bastante tempo. Nem mesmo roteiros. Estou falando de uma história longa, encorpada, com no mínimo 300 páginas, com tanta coisa acontecendo que por mais que a história seja boa a maioria dos leitores nunca conseguirá ler de uma tacada só (não que eu seja um prodígio da literatura, mas você entendeu o que eu quis dizer, não?).

Faz algum tempo que tive a idéia de escrever uma história que classifico como “meu projeto definitivo”, pois estou determinado a maturá-la durante todos os anos que forem necessários. Não se trata portanto de uma história rasa, mas sim de uma história com a maior profundidade que eu possa imprimir. Que terá tantos personagens, locais, situações e tramas que deixaria de ser uma história comum para se tornar uma novela (não de TV, pelo amor de Deus). Na verdade não uma novela, mas sim algo cujo termo me dá calafrios, por julgar-me incompetente para escrever algo que seja digno de tal alcunha: um épico.

A vantagem de minha incapacidade em terminar histórias é que tudo o que eu escrevi e nunca concluí vai ser reciclado nesta nova (e se Deus quiser definitiva) história. Como falei, tenho dúzias de personagens que carecem apenas de algumas adaptações para se encaixar no Universo que estou criando. Universo este, aliás, que vem me tomando um tempo bastante longo nos últimos meses, mas que poderá render muitos frutos.

Percebi lendo “O Senhor dos Anéis” (que para mim é uma obra-prima da literatura mundial) que mais importante do que os personagens e suas aventuras e ações é o mundo no qual eles se inserem. Este Universo tem um peso e importância fundamentais para a qualidade e fluidez da trama.

A Terra Média era muito verossímil porque tinha algo que a maioria absoluta das localidades literárias não tem: história, mitologia, lendas, passado. Não meramente algo como “criado por um deus X”, mas sim um detalhamento muito grande (dentro do humanamente possível) de tudo o que ocorreu desde a criação até o início da história a ser contada de fato. Tal como nosso próprio mundo. Vide “O Silmarilion”, que é o livro que escancara a mitologia, a história antiga e as lendas da Terra Média, tornando-a tão real que quase pode ser tocada com nossa mente.

Já trabalho na criação desde Universo há muito mais tempo do que me dava conta. O que fiz foi desenvolvê-lo e agregar a ele todas as idéias inacabadas que já tive, e que hoje percebo na verdade terem sido guardadas para esta ocasião.

O mais interessante de tudo é que após trabalhar muito no computador em editores de texto, estou finalizando o regimento desde universo em um velho e bom caderno, aonde posso colocar desenhos que eu mesmo desenho, mesmo não sendo lá um grande desenhista. Mas para o que planejo, até que estão ficando bons. Não tenho como descrever a sensação que me dá ao escrever manualmente novamente, mas percebo que a área em meu cérebro que que trabalha a escrita tem compartimentos para ambas as formas, e que a que cuida da escrita a mão é bem mais lenta do que esta que estou usando agora. Mas é prazeroso apesar de tudo.

Se será uma história que ficará em meu armário pelo resto da vida ou se algum dia eu a publicarei, isso eu não sei. Só sei que quero terminá-la, não por obrigação, mas por puro divertimento e exercício da minha habilidade com a escrita.

Sobre o que fala a história? Isso é um segredo que revelei apenas a duas pessoas, e se tudo der certo, até o final dela, assim continuará. Não sou idiota a ponto de contar algo sobre ela na Internet, aonde pessoas prospectam novas oportunidades de conseguir o que de mais valioso há para se negociar na rede hoje em dia: conteúdo.

Se acha que eu estou escrevendo em um caderno apenas por romantismo, você se engana. Sou mais paranóico do que gosto de admitir, e a desconfiança tem uma pequena parte em minha decisão.

28 de maio de 2008

O Reino Mágico do Sul

Capítulo 6:
PRELÚDIO

Os Chibambas Azuis, de aspecto andrógeno e sedutor, eram responsáveis pelas atividades do setor privado, supervisionando de empresários responsáveis por corporações inteiras a trabalhadores de linha de montagem. Eram focados nas cadeias produtivas, humanizando o trabalho e impondo um capitalismo bem menos voraz do que se via no restante do mundo. A jornada de trabalho foi estipulada em no máximo 6 horas diárias, e os conceitos de metas e avaliações foram totalmente revistos e realocados a patamares tangíveis, tornando-as benéficas e não maléficas.


O mercado interno foi privilegiado, sem que as exportações fossem prejudicadas. Pelo contrário: devido a atuação dos Chibambas Vermelhos, as exportações cresciam, pois novas tecnologias eram criadas, e sua produção e implementação na economia ficava a cargo dos Chibambas Azuis, que com os empresários focavam o fim da ganância e do ganho a qualquer custo, enquanto que com os funcionários focavam o comprometimento com o trabalho e a ética profissional sem deixar que isso abalasse suas vidas pessoais com suas famílias. Eles nada mais tentavam do que equilibrar as relações.


Os Chibambas Negros, por sua vez, lidavam com a área mais delicada da sociedade, a qual sustentaria todas as demais: o setor público. Se por um lado diversas instituições haviam sido extintas, os serviços públicos em todas as esferas continuavam em pleno funcionamento, e aqueles Chibambas Negros de porte atlético, feições belas e bondosas, atuavam com funcionários públicos e com os poucos políticos que haviam restado a fim de preparar uma nova cultura neste setor para as gerações futuras.


Os Chibambas negros eram temidos, porque haviam matado muitos políticos que não se redimiam de seus erros e que tentavam insistentemente impor sua corrupção ao limitado poder que Livre os havia outorgado. Haviam as prefeituras, seus prefeitos e vereadores, mas todos eram supervisionados por um Chibamba Negro, que os instruía e observava atentamente. Haviam os Estados e seus governadores, e um poder legislativo diferente, formado não por vereadores, mas sim pelos prefeitos. Eram obrigados a deliberar em prol do bem comum e não mais focando em suas micro-regiões, tendo para isso que trabalharem juntos. Desta forma, foram extintos os partidos políticos, pois não havia mais um partido a ser tomado, uma vez que Livre buscava a unidade e a justiça a todos de uma mesma maneira.


Havia um poder executivo federal que era encabeçado por Livre, e havia, de maneira semelhante às assembléias estaduais, uma assembléia federal, aonde não haviam deputados e sim os governadores estaduais. E havia um senado... Livre entendia que o ideal de uma assembléia que empurra o executivo às maiores altitudes e um senado que limita o teto de vôo era um modelo adequado se permanecesse fiel à justiça, à ética e á busca do bem comum da nação.


E desta forma os anos se passando. Em 300 anos de regime, 12 gerações se passaram, e a cada geração, a cultura que Livre havia criado, de justiça, paz, ética e desprendimento pessoal em prol da coletividade eram mais e mais absorvidas. Muitos já nem tinham Chibambas os supervisionando, ficando estes encarregados apenas por poucas pessoas.


Percebendo que sua missão se aproximava do fim, Livre falou à nação em cadeia nacional. Tinha que relatar ao povo os eventos que se aproximavam, pois aproximava-se do ponto crítico de sua meta. Diante de um scanner tridimensional, Livre foi projetado holograficamente a todos os lares da nação, de forma que todos tinham a impressão de que ele realmente estava ali. Aquela era uma das inúmeras tecnologias desenvolvidas com a ajuda dos Chibambas Vermelhos no decorrer daqueles 3 séculos e que era uma coisa já comum aos brasileiros e ao restante de muitos povos no mundo.


“Olá” disse ele, com um sorriso amável no rosto. Ele não havia envelhecido um dia sequer. “Venho como vim a 3 séculos atrás. Venho determinado em realizar minha missão e comprometido com a justiça, com a verdade e com cada pessoa de bem. Desde o início tenho dito que chegaria o dia em que deveriam andar com suas próprias pernas novamente, e o fato é que vocês já o fazem sem se darem conta, como uma criança cujo pai segura sobre uma bicicleta e, sem que a criança se dê conta, deixa de equilibrá-la para que ande por si só. É chegada a hora de minha partida, mas não sem antes travar a última batalha.”

16 de maio de 2008

O Reino Mágico do Sul

Capítulo 5:
SACRIFÍCIOS

Cinco anos se passaram desde os eventos citados anteriormente. O país continuava cercado por uma barreira mística, intransponível. Aviões, barcos, carros, pessoas... nada era capaz de penetrar aquela luz solidificada. Apenas com a devida permissão... mas qualquer um podia sair, na hora em que bem entendesse.


Livre não era onipresente, apesar de todo o poder que apresentava. Fazia questão de destacar isso a toda população, deixando muito claro que não era nenhuma divindade e muito menos objeto de adoração. Em Brasília, no Monumento (era assim que ele chamava o lugar), ele estendia seus olhos e ouvidos por meio de asseclas que criara com o único propósito de garantir a unidade na nação, reconstruindo-a no lugar certo, que são as pessoas.


Livre não dera um nome a estes seres, que possuíam fisionomias bem distintas entre suas castas. Mas o povo do sul de Minas Gerais lhes deu uma alcunha pela qual ficaram conhecidos em todo mundo: Chibambas. O Chibamba folclórico, como eles bem sabiam, amedrontavam crianças choronas, teimosas e mal-educadas. No final das contas, o que eles faziam era isso mesmo, atuando como monitores e disciplinadores... mas faziam muito mais do que isso.


Haviam ao todo 4 tipos ou castas distintas de Chibambas, e em cada casta, milhares de indivíduos idênticos entre si.


Haviam os Chibambas Verdes, que tinham uma luz esverdeada que emanava de uma esfera no centro de seus corpos feitos de cristal translúcido. Eram de feição delicada, e atuavam na área médica, agindo em todas as atividades ligadas à saúde e bem-estar, humano ou animal. Atuavam nas clínicas veterinárias, hospitais, clínicas médicas e muitas vezes nas próprias casas das pessoas. Faziam cirurgias, anestesias, transplantes e suturas com a mesma habilidade com que efetuavam psicoterapias, massagens e demais procedimentos co-relatados. O povo tinha grande estima por eles, e todos os profissionais de saúde humana e animal atuavam sob sua supervisão, atuando como verdadeiros aprendizes.


Estes profissionais da saúde, por sua vez, eram reeducados não só na questão técnica, mas principalmente na emocional, no relacionamento com seus pacientes de maneira amorosa, cordial e humana, acabando com o conceito de “consulta de 2 minutos”. As condições de atendimento foram elevadas à ideal, e as filas nos hospitais deixaram de existir, permitindo que todos fossem atendidos com prontidão. Tamanha era a qualidade que até os casos mais complexos tinham um alto percentual de cura ou controle. E devido à mudanças realizadas por outros chibambas, a quantidade de pessoas nos hospitais decaíra drasticamente, já que as pessoas comiam melhor e sabiam (e queriam) evitar doenças. Quando as tinham, sabiam bem como não transmiti-la a outras pessoas e o bem que isso causava.


Haviam também os Chibambas Vermelhos, que não emitiam nenhuma luz e tinham uma pele vermelho-sangue com aparência de vinil, e olhos totalmente brancos. Eram os professores e educadores em todas as instâncias, agindo desde a pré-escola até os avançados centros de pesquisa, atuando na área de P&D em diversas especialidades de tecnologia de ponta. Não só davam aulas como supervisionavam e preparavam outros professores e educadores. Tinham autoridade em sala de aula, e disseminavam a busca pela excelência em todas as coisas que alguém faz, não por obrigação, mas sim por prazer, como significado de vida.


Crianças eram reeducadas e ganhavam não apenas conteúdo técnico, mas sim humano. As famílias foram reestruturadas e recebiam a visita constante destes Chibambas, que se certificavam de que a família passara a evoluir seus laços de amor e afeto com sua ajuda na conscientização e educação.


Assim como os chibambas verdes, eram amorosos, pacíficos, divertidos e agradáveis. Mas puniam severamente aqueles que se comportavam mal. Tinham licença para matar, e nos primeiros anos anos daquela ordem, as mortes foram tantas que o mundo as classificou como um genocídio de proporções bíblicas.


As pessoas corretas, direitas, éticas e bondosas, ou aquelas que eram problemáticas mas possuíam vontade e potencial para serem como as primeiras, nada sofreram. Já aquelas que eram más, brutas, mesquinhas, salafrárias, oportunistas, corruptas e exploradoras, eram mortas rapidamente, sem sofrimentos, no que Livre chamou de “grande sacrifício”. Mais da metade das pessoas no país foram mortas, e seus corpos queimados na grande fogueira das vaidades, cujas chamar ardiam sem parar há anos.


Muitos reclamavam daquela brutalidade toda, muitos o chamavam de monstro, de anti-cristo, de genocida, de ditador... Livre lhes dava liberdade de expressão e não fazia nenhuma repressão, apenas a aqueles que davam notícias falsas ou que incitavam o povo ao ódio. Em muitas ocasiões, Livre aparecia em público e, ao ouvir as acusações, não titubeava em declarar-se culpado.


“Sob a ótica humana, sei que sou um monstro. Mas sob a ótica dos monstros, sou um salvador de povos. O que faço, não faço com prazer. A vida humana é valiosa demais para ser sacrificada, mas digo que aqueles que morrem pelas mãos de minhas crias não eram menos monstros do que eu. Tudo o que faço é retirar e queimar as ervas daninhas da plantação, para que a colheita seja somente de bons frutos.”


Comparado a genocidas como Hitler e Saddan Hussen, Livre foi taxativo: “Não existe cor, língua, nacionalidade, religião, etnia ou qualquer outro traço físico que buscamos extirpar desta nação. Nossa luta não é contra o que os olhos podem ver, mas sim com o que os corações podem compreender. A chacina existe e continuará a existir por mais um tempo, porém ela foca exclusivamente o caráter. E pessoas sem caráter também serão pessoas sem vida.”

7 de abril de 2008

PARÁBOLA DO GUERREIRO SOLITÁRIO


As vezes você luta contra algo. Pode ser qualquer coisa, mas que envolva um conflito, uma disputa. Algo difícil que lhe carcome por dentro, pedaço a pedaço, deixando-o oco para que “algo” preencha o espaço. Algo que está em suas entranhas, que se agita em meio a suas vísceras fazendo seu sangue gelar dentro de suas veias.


A guerra se mostra mais difícil a cada combate. Você vê aquilo e percebe que a luta nunca terá fim, e que o oponente parece se fortalecer na mesma proporção em que você enfraquece e se cansa. Por fim, você está cansado demais para lutar, e se entrega. Uma torrente de sensações invade seu organismo e você se pergunta porque afinal lutou contra aquilo por tanto tempo. O prazer toma conta de todos os seus sentidos.


Os dias passam, assim como sua resistência. Cada vez mais submisso aos ataques, você é como um aldeão que ajuda saqueadores a queimar a própria vila. Não há beleza nisso, nem prazer, nem sentido ou propósito. É meramente loucura. Mas estar louco é tão bom, não é?! Porque afinal, todos estão loucos da mesma forma e seguir o fluxo sempre é mais fácil e confortável do que nadar contra a correnteza. Pode até ser que algumas pessoas o olhem e digam que você está louco demais, mas quem poderia lhe julgar?


Você percebe então que, após tanto tempo, está perdendo o controle. Controle que você percebe que nunca teve, e que seria melhor nem ter começado. O pior é se olhar no espelho, e perceber que agora você é capaz de cometer atos muito piores do que aqueles que seus antigos oponentes cometiam. Queimar e saquear já não basta, aquilo já não lhe fornece adrenalina, dopamina ou serotonina. Aquilo não lhe dá mais prazer algum. Você tem que descer mais um degrau rumo ao inferno para voltar a sentir-se vivo. Ir rumo a morte para perceber o quão vivo está. Ceder novamente para ganhar... e perder.


Mas então uma luz surge no meio da escuridão. Ilumina você, e lhe mostra o quão imundo você estava naquele breu, e o quão doente se encontrava. Lhe faz ter vontade de se limpar, colocar-se novamente sobre a luz do sol e voltar para aquela guerra que não tem fim. Mas você não tem amigos para desabafar. Não tem ninguém para contar o quão podre foram seus dias passados, e na vontade que tem de voltar para a escuridão, e uma vez mais ceder.


Você então luta uma vez mais, e derrota 1, 2, 10 adversários. Ninguém vê seu esforço, e você se cansa rapidamente, porque por mais limpo que esteja, e por mais que esteja sob a claridade do Sol, você ainda está doente e não consegue ficar de pé por muito tempo. O Sol começa a torrar seus ombros, e você quer se abrigar uma vez mais na escuridão. Não há companheiros para lhe segurar, nem mesmo para lhe gritar um apoio, uma palavra de coragem. Você está só contra um mundo inteiro, e para cada adversário que cai, 5 se levantam.


Você não quer mais ter que lutar. Lutar da trabalho, cansa, ocupa o tempo escasso, aborrece, entristece, machuca e maltrata. Lutar é doloroso demais para você. Olha para suas mãos e vê cicatrizes de tantas batalhas passadas, aonde derrotou tantos inimigos... e percebe no quão cansado e enfastiado está, e no quanto queria descansar e, despreocupadamente curtir a vida com tudo!


Mas não pode. Só sobre a pena de morrer por tal traição. Traição a quem, se está sozinho? A você mesmo e a aqueles propósitos que antes possuía. E ao Deus que jurou seguir. Nem mesmo descansar no seu Senhor você consegue. A paz lhe é negada, e você é condenado por algo incompreensível a vagar pelos desertos. A solidão é o pior e mais determinado inimigo, que insiste até derrubar as defesas. Não a solidão propriamente dita, mas o isolamento de certas partes de sua vida. Aquelas partes que não tem com quem falar, porque são tão obscuras que você teme afastar qualquer um se as expor, ou então ser punido por tais pensamentos e atos.


O isolamento de certas partes, o ato de compartimentalizar e trancar áreas de sua vida, tornado-as secretas, só serve para fazê-las crescer com mais velocidade, com mais violência, com mais descontrole. O guerreiro solitário no campo de batalha morre logo porque sua moral fica baixa, e ele desmorece e se entrega sem resistência.


Por isso que precisamos de irmãos. Por isso que precisamos de igrejas de verdade. Porque lutar sozinho é se tornar insensível a aquilo contra o que se luta. Lutar sozinho é perder antes de começar. Deus nunca nos deixa sós, de fato. Cristo vive com aqueles que entregam seu coração a Ele, mesmo estando no mais imoral dos pecados. Mas quem disse que você tem que estar só para que os planos do Senhor se realizem? Ele quer que criemos laços de dependência, mas não com o pecado e sim uns com os outros e de nós para com ele.


Não é fácil, e muitas vezes não é agradável. Mas é o certo. É a única maneira de aumentar nossas chances de agüentar de pé no campo de batalha, até o final. Pois o final virá, de uma forma ou de outra.

19 de março de 2008

Adeus a um excelente escritor


Morre o escritor britânico Arthur C. Clarke
da BBC Brasil



O escritor britânico de ficção científica Arthur C. Clarke, autor do conto que deu origem ao filme 2001: Uma Odisséia no Espaço, morreu nesta terça-feira, aos 90 anos.

Segundo um assessor, Sir Arthur C. Clarke morreu devido a problemas cardiorrespiratórios. Ele estava em sua casa, no Sri Lanka, onde vivia desde 1956.

Durante sua carreira, Clarke publicou mais de cem livros, que venderam milhões de cópias.

Em 1968, seu conto A Sentinela foi transformado no filme 2001: Uma Odisséia no Espaço, dirigido por Stanley Kubrick.

As descrições vívidas e detalhadas de naves espaciais e supercomputadores nos livros de Clarke conquistaram milhões de leitores ao redor do mundo.

Na década de 40, Clarke afirmou que o homem chegaria à lua até o ano 2000, uma idéia considerada absurda na época.

Muitos creditam ao escritor o mérito de dar uma face mais humana e prática à ficção científica.

Nascido em Somerset, Clarke era filho de um fazendeiro. Durante a Segunda Guerra Mundial, serviu na Royal Air Force (a Força Aérea Real britânica) em um então projeto ultra-secreto de desenvolvimento de radares.

"Ele estava à frente de seu tempo de tantas maneiras", disse o astrônomo britânico Sir Patrick Moore, amigo de Clarke desde a adolescência. "Um grande escritor de ficção científica, um ótimo cientista, um grande profeta e um amigo muito querido. Estou muito, muito triste com a sua partida."

Depois do fracasso de seu casamento, em 1956, Clarke foi morar no Sri Lanka (então chamado Ceilão), onde desenvolveu interesse por mergulho.

Em 1998, ele enfrentou acusações de abuso de crianças, das quais foi inocentado posteriormente.

Nos últimos anos, Clarke vivia confinado a uma cadeira de rodas em decorrência da síndrome pós-pólio.


Todos tem seu tempo neste planeta, e com ele não seria diferente. 90 anos é bastante, mas minha avó, que vai fazer a mesma idade no final do ano, está super bem. Ele fez e continuará a fazer diferença, seus livros eram ótimos e nos levavam a um universo de fantasia verossímil que nos cativava. Sua obra era muito maior que a história de "2001". Era um mestre nesta forma de literatura.

Arrisco em dizer que Arthur C. Clarke figura na trindade dourada da ficção científica ao lado de Júlio Verne e Isaac Asimov. Que sua alma possa agora vislumbrar os limites da realidade que ele tanto imaginou (e muitas vezes acertou).

"Rest in Peace, Arthur" é o que HAL diria agora...

11 de dezembro de 2007

MATRIX SÓCIO-POLÍTICA

A professora chega apressada para mais um dia de aula na escola pública aonde leciona todas as tardes. Nas manhãs, leciona em um colégio particular para complementar sua renda, assim como muitos de seus colegas.


Ela estava tão cansada desta rotina esmagadora que, prestes a entrar na escola, sente seu corpo gelar ao mesmo tempo que uma forte tontura arrebata seu equilíbrio: sua pressão estava em queda livre, e sem para-quedas. Muito mais por motivos emocionais do fisiológicos.


Do lado de dentro da escola a realidade que ela vivia estava alheia a sua condição debilitada. O lugar continuava repleto de crianças extremamente mal-educadas, que gritavam o tempo todo simplesmente para irritar uns aos outros. Vários alunos faziam isso inclusive durante as aulas, invadindo outras classes para gritar e bagunçar, irritando mais ainda outras crianças, que também começam a gritar e espernear, em um ciclo aparentemente sem fim que nenhum inspetor ou professor parecia capaz de quebrar.


Muitos dos pais destas crianças, no máximo, fingiam se importar de fato com seus filhos, tirando a autoridade de professores e não procurando entender e resolver a situação. Por mais doentio que possa parecer, eles acreditam que tal comportamento de seus filhos é aceitável, ou então até discordam, mas não fazem absolutamente nada para mudar seus filhos julgando que isto é de responsabilidade da escola e dos professores; não deles. Afinal, eles apenas colocaram a criança no mundo, o que já é muito!


Em reuniões na escola, muitos destes mesmos pais demonstram um descaso debochado para com aqueles que, em suas mentes tão rasas quanto a de seus próprios filhos, acreditam se tratar de robôs sem sentimento algum, com a obrigação enfiar na cabeça de seus filhos não só conhecimentos e ferramentas mentais, mas também aquilo que a família tem como dever fundamental em sua instituição desde o início dos tempos: bons modos, respeito, disciplina, honestidade, responsabilidade e mais uma lista enorme de valores e virtudes.


A professora, veja só você, já havia se arrastado até a sala dos professores, deitando-se no chão para que sua pressão voltasse ao normal (já que não havia um sofá sequer no local). O diretor, ao vê-la daquela forma, julga-a folgada e espaçosa, e antes de mais nada, lhe dá uma bronca enorme sem nem ao menos se preocupar em saber o que estava acontecendo. A professora, nervosa e esgotada, desmaia.


No desmaio ela viaja em sua mente por aquela realidade cinza, triste e aflita que a cercava. Ao contrário de uma lista de virtudes e valores, ela via nos alunos daquela escola uma listagem de desvios de comportamento e conduta. Em seu delírio, sua mente visualizava aquelas pobres crianças como sementes de monstros. Não em todos, é verdade. Mas infelizmente, a grande maioria.


Sua mente ainda resgatou uma lembrança em tons de sépia (como toda memória triste e melancólica). Um aluno, ao ser solicitado que retirasse seu boné dentro da escola, agrediu com socos uma inspetora, que ao se defender foi processada, já que não poderia reagir de maneira alguma, mesmo para assegurar sua própria integridade física.


Lembrou também de muitas das ocasiões aonde viu alguns de seus alunos pré-adolescentes vendendo drogas dentro da escola para outros colegas, enquanto outros praticavam pequenos furtos e roubos. Estudavam para, no futuro, serem bandidos melhores.


Ao despertar, a professora se viu cercada por seus colegas e pelo diretor. Alguns a olhavam preocupados com seu bem-estar, outros a fitavam com olhos acusadores e de deboche. Refletindo, a professora sabia que em um ambiente como aquele não eram apenas os alunos que possuíam falhas de caráter. Alguns de seus colegas, não a maioria, mas uma quantidade infelizmente considerável, não passam de canalhas.


Em um jogo político que tinha como objetivo migalhas de egoísmo, enturmavam-se para prejudicar aqueles que não lhes agradavam, mantendo uma aura de poder desprezível que, por fim, só massageava seus egos doentios. Da mesma forma o diretor, em troca de favores de natureza diversa, beneficiava certas professoras, montando horários de maneira a beneficiar seus protegidos, dando-lhes também maior tolerância a atrasos dentre outras coisas.


A professora estava paralisada diante daquela situação medonha. Vinha tendo sessões regulares com psicólogos a fim de resolver consigo mesma aquele enorme dilema. Mas algo dentro dela havia despertado. Mais precisamente, uma constatação que ela mesma vinha se negando há tempos.

A escola pública morreu” pensou ela. “Não só morreu, como foi assassinada”. Ano após ano, dia após dia, foi envenenada aos poucos, perdendo gradativamente as forças, a saúde e a disposição, até que ficou em um leito de hospital de onde todos já sabiam que ela nunca mais iria se levantar. “A escola pública morreu envenenada pelo descaso, pela hipocrisia e pela sede de poder... de uma maneira bem simplista, o mal ganhou do bem, o vilão derrotou o herói e o país comprou uma passagem só de ida rumo ao caos”.


Desde muito tempo atrás inúmeros governos que sucederam-se no poder foram dando à educação um papel eleitoral em duplo sentido. Se por um lado era bonito dizer-se preocupado com a educação das crianças e adolescentes, por outro era extremamente importante a médio e longo prazo manter a maioria da população imersa em um estado de ignorância letárgica, para que com isso fossem facilmente manipuláveis, de forma a permitirem que as mesmas pessoas ficassem no poder. Ou seja, traçaram o plano perfeito para transformar o povo em gado intelectual.


Tal gado é o que se vê hoje vagando pelas periferias e se empilhando nas escolas públicas. Na verdade, um gigantesco exército de seres humanos que não sabem mais o que significa afinal esta história de “ser humano”. Pessoas sem instrução e flexibilidade intelectual, que criam seus filhos sem dar importância ao seu futuro, condenando-os ao mesmo destino triste que tiveram, sem a capacidade de enxergar um palmo diante do nariz. Mesmo porque, como estes pais não tiveram acesso à educação, não conhecem sua utilidade na vida. Pensam que, já que não tiveram aquilo e deram um jeito de sobreviver, seus filhos não estão perdendo nada, afinal.


Para eles, basta viver de forma a atender aquelas expectativas mínimas que lhes foram enfiadas na cabeça desde que se entendem por gente: trabalhar com qualquer coisinha e ganhar pouco, mas ver o jogo do seu time na TV e nos finais de semana fazer um churrasquinho de gato com cerveja. A única coisa que lhes foi permitido aprender é a se contentarem com pouco achando que é muito.


A geração atual de alunos nas escolas públicas é a primeira que é filha de uma geração inteira que, sistematicamente, foi mantida nas trevas sem instrução alguma ou, quando muito, sem qualidade. Antes deles é claro que haviam muitas pessoas que não tinham instrução. Mas, se por um lado a escola era falha, a família não era. A destruição do núcleo familiar sempre foi o estágio final da degradação de um povo, reflexo direto de séculos de descaso com a educação dos integrantes de uma sociedade.


Sem uma família ajustada e com valores para ensinar aos seus integrantes, as crianças de cada nova geração nada mais serão do que monstros mais aperfeiçoados. Não porque tem culpa, mas porque são muito afetadas pelo meio-ambiente aonde se encontram inseridas. Justamente porque não tem um lar que lhes mostre a distinção entre o certo e o errado. E como o errado sempre é mais sedutor que o certo, e como o mal sempre é mais tentador que o bem, e como as crianças e as pessoas sem discernimento sempre são mais influenciáveis e tendem aos atalhos perigosos da vida (afinal no Brasil o que manda é o "jeitinho" e a vantagem pessoal), nada mais é necessário para que as engrenagens do caos girem de maneira macia e eficaz.


A professora ainda está na sala dos professores, com tonturas. Os demais colegas foram dar suas aulas, e o diretor já havia chamado um substituto para ela naquele dia. Esperando melhorar para ir a um pronto-socorro (já que ninguém ali estava disposto a levá-la), ela não consegue parar de pensar sobre todas aquelas coisas horríveis que sua mente refletira.


Ela se recordou das vezes em que, durante uma atividade qualquer, foi fazer um simples carinho na cabeça de algum aluno, e o mesmo recuou, imaginando que ela lhe daria uma pancada. Lembrou-se também de quando tocou o braço de um aluno em sinal de carinho, e o mesmo a afastou, dizendo que não queria e nem gostava de ser tocado. “Nem mesmo afeto eles são capazes de dar ou receber” pensou ela. Aquelas crianças não possuíam mais nenhuma sensibilidade e por dentro eram secos como um deserto, secos como o mar que virou sertão.


Apunhalada por um vazio de enorme tristeza, a professora teve, sozinha na sala dos professores, uma crise de choro. Dentro dela, uma triste certeza se concretizava e uma decisão era tomada. A escola pública foi morta, e com ela, o ânimo de muitos professores genuínos. Não meras pessoas que lecionam por falta de opção. Mas sim professores por vocação, verdadeiros mestres como aquela professora, que tinha no magistério sua realização profissional e pessoal, mas que agora se esvaia em tristeza. Em crise já há bastante tempo, com frequentes desmaios e crises de pânico, além de um cansaço que ultrapassava a compreensão física, ela finalmente atingiu a fase da aceitação, por mais triste que fosse.


Uma andorinha só não faz verão, e infelizmente a vida não é como um daqueles filmes bonitos aonde um professor sozinho consegue revolucionar uma escola barra-pesada, catapultando alunos marginalizados pela sociedade para uma vida repleta de oportunidades por meio (veja só você) do ensino!


Durante muito tempo ela repudiou tal idéia, assumindo que tal atitude nada mais era do que egoísmo ou covardia, comparando isso a um soldado que abandonava o campo de batalha no momento mais difícil da guerra. “Mas um soldado solitário sempre é morto pelo inimigo... o Rambo é apenas um personagem, e se fosse real, conhenhamos: ele teria morrido já no primeiro filme”. Seu pai, militar aposentado, sempre lhe dizia isso.


É melhor lutar outro dia, com mais apoio, encontrar uma brecha nas linhas inimigas e lutar em outra frente de batalha. Recuar, nestes casos, não é covardia e nem falta de honra. É sinal de prudência”. Movida pela paz da decisão e pelas memórias do que seu pai costumava lhe dizer (como disse os pais são fundamentais na educação e carater de qualquer pessoa), mas sem deixar de se sentir estilhaçada em sua alma, ela se levantou e foi embora, para nunca mais voltar a uma escola pública.


Os alunos daquela escola agora teriam um novo professor pelo resto do ano. Um professor que nem esboçava se importar com eles. E infelizmente a maioria dos alunos mal notou que a pessoa ali, bem na frente deles, havia mudado. Eles nunca prestaram atenção naquela pessoa de ar cansado e um toco de giz na mão.


Já aqueles poucos que ansiavam por educação sentiam-se como que levando um balde de água fria em suas cabeças. Por dentro, estavam tão estilhaçados quanto sua ex-professora. Perdiam a vontade de estudar, e começavam a sonhar com churrascos dominicais e uma vida medíocre. Seus sonhos viraram o pó que outros colegas passaram a lhes vender.


Muito se fala sobre a sociedade civil se articular para fazer algo a respeito desta e de muitas outras situações (mesmo que todas as demais tenham sua origem nos problemas da educação). Mas a verdade é que a sociedade civil não tem mais força alguma, e tornou-se prisioneira de si mesma.


O governo público, afinal de contas, não é a organização da sociedade civil? Porque tem-se então a impressão de que a sociedade é uma coisa, e o governo outra? Elegemos representantes para tomar decisões por nós e para nós, para que organizem a sociedade com leis e direitos, garantindo que estas sejam cumpridas por força de suas instituições, com fiscalização e punição.


Em ultima instância o governo vive para nos servir. Porque ele nos trata então como camponeses em um regime monárquico, aonde nós servimos os servidores? Seria normal entrar em um restaurante e passar a atender os garçons?


Somos uma sociedade fundada por ex-escravos que só aprenderam a ser submissos (povo), bandidos (ainda bandidos) e exploradores (governos). Era assim em 1500. Ainda é assim hoje.


Se for para deixar o povo na lama e na escuridão atual, pelo menos a classe dominante poderia ser mais sincera e nos colocar novamente em uma ditadura declarada, arrancando todos nós desta “matrix sócio-política”. Porque a hipocrisia em que vivemos hoje não passa de um simulacro, uma ilusão fraca que dá muitos sinais de sua natureza (quem tem olhos, que veja).

Afinal, o que vivemos desde muito tempo atrás até os dias de hoje não seria uma ditadura branca (não na cor, mas na sutileza)?

23 de novembro de 2007

O Reino Mágico do Sul

Capítulo 4:
FOGUEIRA DAS VAIDADES

Foi como se o ar tivesse parado de propagar o som por alguns segundos. Um silêncio sobrenatural tomou conta do lugar, e todos sentiram um calafrio indescritível. Todos os olhos e câmeras no local se voltaram para a pilha de destroços incandescentes do Palácio do Planalto. Vislumbraram o fogo, que era avermelhado e discreto, ganhar cores verdes e grandes labaredas, como se a tivessem reabastecido com um combustível de alta octanagem.


Do meio das chamas, Livre apareceu brilhando tanto quanto uma estrela. Mais uma vez seu brilho foi se apagando, conforme saia das chamas verdes. Os militares caíram sentados, derrotados ao ver que nada do que fizeram surtiu efeito. Os políticos sentiram suas almas gelarem. As câmeras e microfones das equipes de reportagem se direcionavam famintas para Livre, que pousou no solo com suavidade. Ele começou a falar.


“Olá”, disse ele, com um sorriso paternal nos lábios. “Sei que todos devem estar confusos e assustados, mas quero deixar bem claro que toda esta destruição não foi provocada por mim, mas sim por eles” disse Livre, indicando o presidente e os demais políticos que o cercavam. “Eu apenas vim para quebrar um ciclo vicioso. Porém este evento teve o seu propósito. Como símbolo de uma era decadente, o prédio que outrora aqui existia foi destruído por aqueles que nele viviam. Tomei providências para que o fogo aqui existente não se extingua até o final dos dias. Será um memorial ao povo. Um memorial de seus erros. Uma fogueira das vaidades, aonde todos que a contemplarem terão a oportunidade de queimar seu egoísmo, perversidade e corrupção.”.


Livre virou-se e com um gesto, fez com que as chamas ganhassem cores brancas. Se alguém se aproximasse dela, notaria que as chamas não ardiam nem queimavam fisicamente. Mas causavam queimaduras nas emoções mais viz do coração. As chamas eram brancas porque eram chamas purificadoras. Livre virou-se novamente para os jornalistas e para o povo que agora estavam mais próximos ainda.


“Como símbolo da falência desta era, resta-lhes esta fogueira das vaidades... e como símbolo dos novos tempos, dou-lhes um substituto que representará a força e a transparência que irão reger este país daqui por diante. A sede do novo governo deste país.”.


Fez mais um gesto, e logo atrás da fogueira das vaidades fez surgir algo cuja beleza era de uma simplicidade e força singulares no planeta inteiro. Uma construção enorme, cerca de 20 vezes maior do que o antigo palácio do planalto, surgiu do nada. Totalmente feito de cristal, mais resistente do que diamante, com muitas partes totalmente translúcidas e um teto de cristal fosco, para proteger do Sol quem dentro dele estivesse, mas que ao mesmo tempo permitia uma iluminação interna natural. Não era um palácio, mas sim um templo, com enormes colunas e um pé direito de 15 metros em cada andar, com um total de 5 andares.


Todos olhavam para aquilo com assombro. Era a obra de arquitetura, se é que uma construção mágica podia ser chamada assim, mais bela já sonhada por uma mente humana. Livre voltou a falar aos repórteres.


“Declaro extintos os 3 poderes civis, as forças armadas, a república, a democracia e o país chamado Brasil por um período de 500 anos. De hoje até lá esta terra será conhecida como Reino Mágico do Sul e eu, Livre, seu regente. Como primeiro ato, fecho as fronteiras terrestres, marítimas e aéreas do país com uma barreira arcana”. Ele fez um gesto estranho com suas mãos e um circulo arcano surgiu no chão sob ele. Imediatamente uma barreira translúcida e azulada se estendeu por todas as fronteiras citadas.

continua...

22 de novembro de 2007

O Reino Mágico do Sul

Capítulo 3:
SIMBOLISMOS

Livre olhou para aquele homem encolhido diante dele com repugnância, mas teve pena. O presidente chorava e estava a beira de um colapso nervoso, seja pelo espanto da aparição, seja pela dor de suas unhas descoladas. Livre o tinha conquistado. Livre podia libertá-lo, e assim o fez. Tão subtamente quanto havia aparecido, o revestimento de cristal se desmaterealizou, e o presidente rapidamente saiu correndo pela corredor, gritando desesperadamente.


Livre esperou pacientemente. Sabia o que viria a seguir. Na verdade era preciso que aquilo ocorresse como um ato simbólico, para que todo o povo e todas as gerações seguintes compreendessem aquilo que estava para acontecer. Bem... não tanto para a geração atual, que não tinha como decifrar o simbolismo oculto nos atos que começavam a se desenrolar ali, naquele instante, devido a sua condição de penúria e escravidão intelectual. Mas as gerações futuras, estas sim compreenderiam este simbolismo. E este simbolismo se enraizaria em suas almas de tal forma que eles nunca mais voltariam a ser como eram. Seriam, evidentemente, como Livre era.


Minutos depois cerca de 30 homens armados da segurança entraram atirando certeiramente em Livre. Os projéteis batiam contra sua pele e sua trajetória era desviada, fazendo com que as balas simplesmente ricocheteassem. Os homens olharam para aquilo de maneira assustada. Os locais aonde as balas haviam acertado Livre (todas pontos mortais, diga-se de passagem) estavam trincadas, e as trincas logo se fecharam, como que por mágica. Sua pele era como que feita de cristal.


Livre olhou para eles de forma dócil. Sabia que eram meros bonecos, como ele mesmo era sob um ponto de vista. Com um gesto rápido de suas mãos, transmutou as armas daqueles homens em um lodo negro e de cheiro horrível.


Um deles, provavelmente o mais estúpido de todos, avançou contra Livre. Era perito em artes marciais, mas não conteve o grito de dor quando esmigalhou a maior parte dos ossos de sua mão direita ao tentar aplicar um violento soco contra o rosto de Livre.


“Parem, será que não percebem? Nada disso é necessário”. Os homens arrastaram seu amigo para fora e desapareceram. Em minutos surgiram homens uniformizados com roupas de um esquadrão especial do exército. Suas armas eram de calibre muito maior, e logo começaram a atirar contra Livre em um volume ridículo. Um ser humano teria sido esfacelado pela quantidade de balas. Mas o efeito foi pior do que da vez anterior, e muitas das balas, no seu ricochete, atingiram os atiradores. Alguns morreram na hora.


Aquilo se estendeu por cerca de duas horas. Tropas inteiras cercavam o Palácio do Planalto (que obviamente já estava evacuado desde os primeiros minutos após Livre libertar o presidente), com tanques de guerra e veículos blindados como apoio. Jatos da Força Aérea sobrevoavam o lugar e o espaço aéreo estava isolado. Redes de notícia tentavam captar e noticiar o que podiam. Todo o país estava diante da televisão, que mostrava colunas de fumaça negra subindo de dentro da sede do governo. No exterior, milhões de pessoas viam os eventos.


Após a 7ª tropa falhar na tentativa de eliminar “o demônio” (como os operativos do local chamavam Livre), o presidente, reunido com seus ministros e com os chefes das forças armadas, salivava quando dizia que deviam bombardear o prédio e matar a criatura.


“Tem certeza, Sr. Presidente? É um dos símbolos máximos do País” ponderou um dos líderes militares. “Ponha abaixo e mate aquela criatura terrível, vamos mostrar que temos capacidade de realizar sacrifícios em prol da nação” disse ele, raivoso. Os ministros concordavam. Com pesar, o coronel deu a ordem a seu comandante, que as repassou para a base mais próxima. Em minutos um bombardeiro levantou vôo e despejou toneladas de explosivos contra o Palácio do Planalto, acompanhado por misseis de diversos caças que patrulhavam a área, com a finalidade de causar uma explosão de força incrível e assim assegurar o objetivo de destruir Livre.


O país (e boa parte do mundo) ficou catatônico diante da cena ao vivo. Nunca antes naquele país havia se vido uma coisa tão incrível, poderosa e destrutiva. Um grande cogumelo de fogo, entulhos e terra se levantou a centenas de metros no ar, e uma grande montanha de destruição incandescente habitava onde outrora era a sede do governo.


Minutos se passaram, os políticos comemoravam, os militares pensavam se aquilo era mesmo necessário, o povo sentia um nó na garganta e as agências de notícia vibravam com a cobertura ao vivo mais impactante desde os eventos de 11 de setembro. Só que ninguém esperava pelo que ocorreu logo em seguida.

continua...