LUTE

Combata o bom combate da fé. Tome posse da vida eterna, para a qual você foi chamado e fez a boa confissão na presença de muitas testemunhas - 1 Timóteo 6:12

SE DEIXE TRANSFORMAR

Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus - Romanos 12:2

ACEITE O SACRIFÍCIO

Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna - João 3:16

VÁ NA CONTRA-MÃO

Converta-se cada um do seu caminho mau e de suas más obras, e vocês permanecerão na terra que o Senhor deu a vocês e aos seus antepassados para sempre. Não sigam outros deuses para prestar-lhes culto e adorá-los; não provoquem a minha ira com ídolos feitos por vocês. E eu não trarei desgraça sobre vocês - Jeremias 25:5-6

REFLITA A LUZ DE JESUS

Pois Deus que disse: "Das trevas resplandeça a luz", ele mesmo brilhou em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo - 2 Coríntios 4:6

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14 de março de 2014

ACADEMIA, BARULHO E VIZINHANÇA - PERDENDO A PACIÊNCIA

Zumba - muito barulho por nada
Por que o ser humano se afunda em um ambiente repleto de barulho e poluição sonora? Mais especificamente: por que o ser humano obriga outros seres humanos a imergir num oceano de barulho, som alto e ruídos que incomodam tanto quanto ou até mais do que outros tipos de poluição?

Vou responder isso no final deste post. Antes, um retrato de minha atual condição.

Eu moro na frente de uma academia aqui em Campinas. Ela se chama "Estrutura do Corpo", na Vila Industrial. E por muitos anos nunca tive problemas com eles porque na verdade meu prédio dava para os fundos dessa academia.

Tudo estava bem até o instante em que os proprietários fizeram uma "reforma" no estabelecimento, e no lugar de uma garagem de uso privado dos proprietários surgiu uma sala de musculação. Esta sala, devido a uma total inadequação acústica (o nível da academia é bem precário e improvisado) e total falta de respeito para com a vizinhança, tornou-se uma especie de direcionador sonoro para toda a gritaria e música absurdamente alta que inexplicavelmente tem feito parte deste tipo de ambiente (aulas barulhentas como zumba ou simplesmente a música ambiente das salas de musculação tem sido semelhantes aos de casas noturnas não só no estilo como no volume).

Duvida? Então olhe esse vídeo, que gravei em diferentes dias e horários, por duas semanas:


As janelas ficam constantemente abertas, direcionando e amplificando todo o som do estabelecimento para o meu prédio, tornando meus dias um inferno e me levando a situações emocionalmente desesperadora: irritação, depressão (que estava sob controle mas que diante desse barulho todo se descontrola) e sentimentos de ódio e violência poluem minha mente. Sim, ódio e violência.


O desejo de que o barulho pare é desesperador e frustrante, pois não tenho nenhum controle sobre sua emissão. Pensamentos maléficos de retaliação e vingança surgem do meio do meu desespero, o que para uma pessoa que procura ser seguidora de Jesus é algo bastante perturbador, doloroso, deprimente e frustrante.

Não quero o mal para ninguém, mas esse desejo surge involuntariamente - direcionado ao estabelecimento - com o ódio que me aflora devido a me sentir invadido em minha própria residência, local que em última instância é meu bastião pessoal, meu refúgio final de um mundo já extremamente agressivo e opressor.

Não tenho problemas com ruídos funcionais, como o dos ônibus que passam pela rua - e causam um barulhão também - porque sei que eles são curtos e tem significância (as pessoas precisam usar transporte público para trabalhar e ir e vir em suas vidas), mas o som da academia não é funcional (você não precisa de música alta pra fazer exercícios, e se acha que precisa pode muito bem usar fones de ouvido). Também não é um ruído de curta duração, tão pouco agradável, muito menos suportável. É tão ruim quanto os idiotas e débeis mentais que passam pela rua com seus carros com equipamentos de som absurdamente potentes, tocando funk ou qualquer outra porcaria do tipo (e nesse caso podia ser até mesmo a música que eu mais amo, não iria importar, ei iria odiar da mesma forma).

Interessante notar o que li quando fazia pesquisa para escrever este artigo. Segundo Fernando Pimentel Souza [4], Professor Titular - UFMG, especialista em neurofisiologia, membro do Instituto de Pesquisa do Cérebro, UNESCO, Paris:

"Se o ruído é excessivo, o corpo ativa o sistema nervoso, que o prepara contra o ataque de um inimigo invisível, sem pegadas, que invade todo o meio embiente pelas menores frestas por onde passa o ar ou por toda ligação rígida à fonte ruidosa. O cérebro acelera-se e os músculos consomem-se sem motivo. Sintomas secundários aparecem: aumento de pressão arterial, paralisação do estômago e intestino, má irrigação da pele e até mesmo impotência sexual."

Isso explica muitas coisas pelas quais venho passando, como dito anteriormente. Além disso, ele [4] complementa:

"Pesquisa nos EUA mostrou que jovens em ruído médio inferior a 71 decibeis, entremeados com pulsos de 85 decibeis só a 3% do tempo, tiveram aumentos médios de 25% no colesterol e 68% numa das substâncias provocadoras de estresse: o cortisol. Mas já a partir de 55 decibeis acústicos a poluição sonora provoca estresse, segundo a Organização Mundial de Saúde. Pelo nível de ruído das nossas cidades e casas, a maioria dos habitantas deve estar sob estresse prolongado, surgindo ou agravando arterioscleroses, problemas de coração e de doenças infecciosas, fazendo inúteis dietas e acabando precocemente com suas vidas."

Ou seja, estou tendo minha saúde mental, espiritual e física afetadas por um lugar que - veja só você - devia ser um promotor de saúde! Uma total inversão de valores! "Venha fazer atividade física e ter saúde!" dizem eles cheios de pompa. Mas às custas da saúde de quem mora por perto, né? Na média, fazem mais mal do que bem!



Não preciso dizer que estou com meu humor e paciência péssimos.

Já reclamei na prefeitura, que disse que iria averiguar ainda no ano passado, mas que até agora não fez nada, ou fez e não surtiu nenhum efeito. Existem normas para que um estabelecimento tenha um alvará de funcionamento, mas ou não está havendo a fiscalização correta ou as exigências para a emissão de alvarás é insuficiente.

Existem normas que estabelecem a questão de ruído e níveis de decibéis em estabelecimentos, assim como questão de tratamento e isolamento acústico [8], a NBR-10152 [6]. Me pergunto se os orgãos públicos averiguam se esta norma está sendo seguida quando emitem um alvará.

O incrível é que o excesso de decibéis não incomoda só os vizinhos, mas faz mal aos próprios profissionais que trabalham no estabelecimento [3], assim como a todos os requentadores. Perda auditiva, além de todos os sintomas que mencionei anteriormente, causam muito mal à mente e ao corpo de todos. Ou seja, não é bom pra ninguém, seja para quem mora perto de academias, seja para quem frequenta academias, seja para quem trabalha em academias.

Tudo se resolveria se esta academia simplesmente fizesse um isolamento acústico [9] adequado e seguisse a normalização [6]. Academias bem estruturadas podem produzir mais barulho do que esta, mas devido ao isolamento, se você passar pela rua na frente do estabelecimento você não ouve NADA. Ou seja, há meios de resolver a situação, mas o estabelecimento em questão sequer pensa a respeito. O que me leva à resposta da pergunta inicial.

Por que o ser humano se afunda em um ambiente repleto de barulho e poluição sonora? Mais especificamente: por que o ser humano obriga outros seres humanos a imergir num oceano de barulho, som alto e ruídos que incomodam tanto quanto ou até mais do que outros tipos de poluição?


Primeiramente, estamos no Brasil. Eu sou uma pessoa terrivelmente crítica quanto ao Brasil porque eu olho as coisas como elas são. Há muitos países com culturas iguais ou piores do que as existentes no Brasil, mas há também muitos países com culturas melhores, e eu precisei de apenas 14 dias no Japão para perceber isso com meus próprios olhos.

No Brasil as pessoas não se importam nem um pouco com as outras. Nem um pouco MESMO. Se preocupam no máximo com amigos. Mas com o vizinho? Com a pessoa na rua? Com estranhos? Com a sociedade em geral? Nunca! Somos indiferentes e egoístas. Só pensamos em nosso próprio conforto e dane-se os outros.

A demagogia da nossa sociedade se manifesta nas grandes e pequena coisas, e a máscara é colocada porque gostamos de nos imaginar como um povo caridoso, bom. Seja nos políticos que fingem fazer tudo pelo bem do povo mas que não estão minimamente preocupados com a opinião pública e que prevaricam e praticam corrupção, seja no cidadão comum que se acha um pilar de bondade, moral é ética, mas que na cortesia de dar a vez no transito ou em não jogar lixo na rua ou em não incomodar as pessoas desnecessariamente é absolutamente falho. Assim, não ser capaz de refletir por alguns instantes sobre algo como "será que meu estabelecimento está incomodando a vizinhança?" é uma manifestação cultural em nossa sociedade. É ser brasileiro. É ser idiota, egoísta e estúpido.

No máximo, o que os proprietários deste estabelecimento pensarão diante disso tudo é o que todo "brasileiro" pensaria: "os incomodados que se mudem". Essa frase, aliás, representa tudo o que mais odeio nessa cultura, que é a de que ninguém nunca admite que está errado, ou que precisa corrigir algo, ou que tem um procedimento incorreto.


O professor Fernando Pimentel Souza [4] ainda disse:

"O ruído estressante libera substâncias excitantes no cérebro, tornando as pessoas sem motivação própria, incapazes de suportar o silêncio. Libera também substância anestesiante, tipo ópio e heroína, que provoca prazer, abrindo campo para o uso de fortes drogas psicotrópicas. As pessoas tornam-se viciadas, dependentes do ruído, paradoxalmente caindo em depressão em ambiente com silêncio salutar, permanecem agitadas, incapazes de reflexão e meditação mais profunda."

Assim, é um ciclo vicioso e até mesmo uma espécie de vingança ou psicopatia. A pessoa passa a achar que viver imerso no barulho é normal e que todo mundo gosta, sem a menor capacidade de refletir que o próximo pode pensar de maneira diferente e querer o silêncio. Essa é uma forma de pensamento bastante idiota. É como o Psicopata Americano, que não se importa com os outros, que sente uma dor (existencial) terrível em sua vida e quer que as outras pessoas a sintam também.

É por isso que pessoa como eu fogem das academias, mesmo precisando se exercitar. Tais locais privam as pessoas tanto do acesso ao silêncio quanto a seus próprios serviços. As academias estão fazendo, com essa cultura do barulho, um mal imenso a médio e longo prazo, e piorando consideravelmente a sociedade, fazendo exatamente o oposto do que devia ser sua missão mais fundamental: levar bem estar e equilíbrio às pessoas. Estão sendo apenas mais um dos agentes do caos.

E assim vamos indo, com a sociedade cada vez mais repleta de estupidez, de egoísmo, de barulho e de falta de paz.

Finalizando: diante de tudo isso, o que eu vou fazer a respeito?


Não sei o que posso fazer, e isso é o que mais me deixa frustrado. Reclamações na prefeitura já foram feitas sem nenhum efeito. Mudar de casa é impossível no momento, com os atuais preços no mercado imobiliário. Retaliação não é uma opção, mesmo que eu quisesse não saberia o que fazer, e não quero por saber que é eticamente incorreto.

Quem sabe mover uma ação? Mas para isso há uma série de preparações necessárias, como laudos, testemunhas, etc. Sem contar os custos de um processo. Ou seja, é algo meio inviável, mesmo porque não tenho um advogado para ver isso para mim.

O que me resta fazer é entregar ao Senhor. Deus é todo poderoso, e peço a Ele que cuide da situação da forma que entenda ser a melhor. DEUS NUNCA ME DECEPCIONOU. Me rendo diante do Pai, e peço perdão pelo sentimento de ódio e desejo de retaliação. Perdão pela mudança de foco. Meu foco não deve ser minha paz e nem meu conforto, mas sim em cumprir a vontade de Deus em minha vida. "Sei que meu comportamento poder ser... errático as vezes" mas quero mudar. Não quero mais sentir ódio, nem raiva com essa situação em especial, e com nenhuma outra na verdade.

"Seja a vossa eqüidade notória a todos os homens. Perto está o Senhor. Não estejais inquietos por coisa alguma; antes as vossas petições sejam em tudo conhecidas diante de Deus pela oração e súplica, com ação de graças. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus."
Filipenses 4:5-7


Fontes:

  1. http://www.stj.jus.br/portal_stj/publicacao/engine.wsp?tmp.area=398&tmp.texto=108843
  2. http://pt.wikipedia.org/wiki/Polui%C3%A7%C3%A3o_sonora
  3. http://www.pgedf.ufpr.br/Referencias08/ruido%20em%20academias%20de%20ginastica%20ZN.pdf
  4. http://www.icb.ufmg.br/labs/lpf/2-14.html
  5. http://www.wikihow.com/Prevent-Noise-Pollution
  6. http://querosossego.files.wordpress.com/2008/08/abnt-nbr-10152.pdf
  7. http://querosossego.wordpress.com/
  8. http://pt.wikipedia.org/wiki/Isolamento_sonoro
  9. http://www.isoline.com.br/produtos/isolamento-acustico/

11 de março de 2014

INSENSIBILIDADE DE UM FALSO SAMARITANO

O Bom Samaritano
Ferdinand Hodler

E, respondendo Jesus, disse: Descia um homem de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos salteadores, os quais o despojaram, e espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto. E, ocasionalmente descia pelo mesmo caminho certo sacerdote; e, vendo-o, passou de largo. E de igual modo também um levita, chegando àquele lugar, e, vendo-o, passou de largo.
Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, moveu-se de íntima compaixão;
E, aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando-lhes azeite e vinho; e, pondo-o sobre o seu animal, levou-o para uma estalagem, e cuidou dele; E, partindo no outro dia, tirou dois dinheiros, e deu-os ao hospedeiro, e disse-lhe: Cuida dele; e tudo o que de mais gastares eu to pagarei quando voltar.
Qual, pois, destes três te parece que foi o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores? E ele disse: O que usou de misericórdia para com ele. Disse, pois, Jesus: Vai, e faze da mesma maneira.
Lucas 10:30-37

A passagem do Bom Samaritano é uma das mais marcantes da Bíblia para mim por manifestar uma das principais características que um cristão genuíno tem: a caridade e o comprometimento com o próximo. Essa passagem é direta e prática, carregada de ensinamento e significado, simples... mas absurdamente difícil de ser aplicada no nosso dia a dia.

O "não ajudar a quem parece precisar de ajuda" é um comportamento natural na nossa sociedade, pois muitos espertalhões folgados e mal intencionados se aproveitam da situação para se fazerem de coitados e praticar desde a mendigagem desnecessária até roubos e chantagens. Você provavelmente já passou por isso, tenho certeza.

Mas e quando é claro que uma pessoa precisa de fato de ajuda e você, desacostumado a praticar esse tipo de amor, ignora, olha pro outro lado, se esquiva? Eu passo muito por isso, e todas as vezes me sinto um idiota porque eu devia ter o desprendimento de ser caridoso, de ajudar, de me envolver. Todos nós devíamos. E não por sentimento de culpa - que é usado por muitos para arrancar uma "caridade" sua - ma sim pelo amor e sincero desejo de ajudar um ser humano. Um ser humano! Um ser para o qual desaprendemos a amar.

Estes dias eu estava indo almoçar, e na porta do restaurante havia um morador de rua sentado, meio acabado, olhando para o infinito. Pensei se ele queria algo para comer, mas fiquei com medo de perguntar. Medo dele querer conversar comigo ou de que ele me visse como um salvador e ficasse sempre atrás de mim para dar comida a ele? Medo de me tornar responsável por ele em algum grau? Não importa, foi apenas medo. Mas por que eu não tenho mais medo do fato de não cumprir a vontade de Deus?

Veja bem, não foi pelo dinheiro: uma marmita naquele restaurante seria barata de pagar. Então por que eu não fui lá, perguntei pra ele se ele queria uma marmita? Por que fui omisso?

E esse é só mais um exemplo da minha babaquice e auto-engano. É uma barreira que não consigo quebrar, e assim vou agindo como levita ou como sacerdote... sem me sujar, sem me envolver, sem amar.

Esse post não contém nenhuma reflexão - o ensinamento que Jesus deu ao falar essa parábola é claro como cristal. Este post é apenas um desabafo e um reconhecimento do meu pecado e da percepção - antiga - de que eu preciso mudar e melhorar, não apenas - mas ainda sim - nisso.

Assim, como um falso samaritano, finjo ajudar, finjo me importar, finjo ser o que não sou mas devia ser, e tento me enganar quanto ao estado deplorável que é minha moral e minha ética.

7 de março de 2014

O CUMPRIMENTO DA LEI

Justice and Divine Vengeance Pursuing Crime
Pierre-Paul Prud'hon

Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim obrigar, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til jamais passará da lei, sem que tudo seja cumprido. Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus. Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus.
Mateus 5:17-20

Em mais uma pregação do meu pastor - Rubens Santos, titular da Igreja Batista Memorial do Centenário em Campinas – uma mensagem bastante interessante nos foi apresentada, ainda baseada nas bem-aventuranças (Mateus 5), na verdade em sua continuação.

Jesus coloca-se mais uma vez como O exemplo. Ele demonstra em sua vida que sua justiça é a própria justiça moral de Deus em toda a sua amplitude. O próprio Pilatos reconheceu esta justiça e a falta de qualquer culpa que Jesus poderia ter, tornando portanto o ato do sacrifício da cruz algo de profundeza espiritual infinita como pode ser visto adiante..

Jesus disse no trecho acima citado que veio para cumprir a Lei e não para anulá-la. Não sei você, mas para para mim o fato de que a Lei não podia ser cumprida por ninguém (apenas por Ele próprio) e ao mesmo tempo Ele dizer que nós devemos ser como Ele (imitá-lo inclusive no cumprimento da Lei) causa uma (falsa)  sensação de contradição.

Primeiramente é preciso entender o que é "a Lei". A Lei são as "regras, deveres e privilégios" espirituais ensinadas pelo sistema religioso de Israel na época e até os dias atuais dentro da religião judaica (e cristã). Tal "Lei" era pesada demais para os judeus (e cristãos) devido a própria interpretação que os "doutores da Lei" (clero) davam a elas. Resumindo: os fariseus ensinavam interpretações falhas (humanas) das escrituras, exigindo um comportamento dos fiéis, comportamento que eles próprios não eram e não são capazes de cumprir.

Cientes disso, nos fica claro que a doutrina que Jesus trouxe não era diferente - não houve mudança da "Lei". Ela apenas foi despida da sua interpretação falha, humana e cheia de peso, culpa e julgamento. Jesus a mostrou segundo sua verdadeira natureza, ou seja: segundo a verdadeira intensão de Deus. Não a toa Jesus fala que seu julgo era leve: Ele demonstra que seguir a Lei não é difícil como somos levados a crer, ficando sua dificuldade e peso atribuídos às interpretações falhas criadas pelo sistema religioso.

Jesus portanto não descumpriu a Lei mesmo em situações em que fariseus acharam que sim, como nos casos de pegar espigas e curar pessoas no sábado. Jesus demonstrou nestas passagens que a prática do bem e do amor nunca descumprirem a Lei, pelo contrário, cumprem-na. Esta é a verdadeira Lei: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Entendimento, cordialidade, paz, justiça, respeito. Tudo isso e muito mais.

Jesus cumpriu esta Lei na sua plenitude, realizando a vontade de Deus e dando sua vida pelo próximo, que somos todos nós. Jesus uniu assim o velho e o novo testamento, pois só Ele pode cumprir a Lei plenamente.

Tendo em mente que a Lei apresentada no Antigo Testamento é doutrinária (pois ensina a vontade de Deus), profética (pois revela a existência de Deus e a salvação do homem de seu pecado) e moral (ensina o comportamento que os filhos de Deus tem por natureza), fica claro que Jesus não rompe com o Antigo Testamento, mas sim o reinterpreta da maneira pura, sem a cultura do homem associada, como visto na carta de Paulo aos Hebreus.

Jesus é assim a continuidade da conversa que Deus começou com a humanidade no antigo tratamento. Desde o Gênesis a doutrina da salvação é a principal mensagem das escrituras, assim como o espiamento dos pecados pelo sacrifício de um inocente (o surgimento do sistema sacrificial), que por sua vez é plenamente cumprido em Jesus, o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.

Jesus é de fato O exemplo. Ele cumpriu todos os preceitos éticos dados por Deus, como amor, bondade, sacrifício e amizade. Por meio dEle, fica claro que nosso relacionamento com Deus se resume em estabelecer um novo padrão de vida diante do Pai, um padrão segundo sua vontade.

25 de fevereiro de 2014

QUE LUZ SOU EU? SEM ESPAÇO PARA A CULPA

"José o Carpinteiro"
de Georges de La Tour
http://en.wikipedia.org/wiki/Joseph_the_Carpenter
Em mais uma pregação do meu pastor - Rubens Santos, titular da Igreja Batista Memorial do Centenário em Campinas – uma mensagem bastante interessante nos foi apresentada, ainda baseada nas bem-aventuranças (Mateus 5), na verdade em sua continuação.

Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte; Nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos que estão na casa. Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus.
Mateus 5:13-16

Há uma conotação, dada pela igreja de forma geral, que diz que DEVEMOS SER sal e luz, e de que exista uma obrigação em sermos assim. Mas o texto não nos conclama a uma obrigação, mas sim a uma natureza: não nos tornamos, já somos.

Somos desafiados pelas pessoas a sermos sal e luz, em uma interpretação equivocada de que devemos nos ater a conter nossos impulsos, a não olharmos e darmos vazão às oportunidades para cometer o mal e aquilo que não é a vontade de Deus. Bem, é isso, mas muito mais e ao mesmo tempo mais simples. É se comportar e ter atitudes que vão contra a cultura humana do egoísmo e submissão pelo uso da força. É se preocupar com o próximo, respeitar o ser humano, agir com bondade, com calma e paciência. É ser equilibrado e justo, buscando o bem comum. É amar.

O conceito de ser sal e luz está logo após os versículos das bem-aventuranças, e não são um novo assunto mas sim uma complementação (ou conclusão) das próprias bem-aventuranças que Jesus falava anteriormente, que são as qualidades do Reino de Deus manifestas em nós e por nós. Não há portanto uma obrigação em ser sal e luz, mas sim uma constatação de que uma vez aceitando Cristo, já somos sal e luz, sendo este sal e luz manifestações da nossa nova natureza como salvos.

E ai me pego nos dias atuais, onde ando sem a menor paciência e a irritação me domina, por um monte de razões que diante de Jesus Cristo não são justificativa alguma.

Uma mulher muito sonsa parou o carro na entrada do meu prédio, bloqueando entrada e saída de veículos (e eu estava tentando chegar em casa, com o dedo dolorido de uma cirurgia e cansado após um sábado inteiro estudando em minha pós graduação), para deixar um papel na portaria. Ela foi se arrastando, e demorou bem mais do que 3 minutos, pegando e depois colocando os papéis no porta-malas do carro. Acabei gritando com ela e minha vontade era de ver o sangue dela escorrendo pelas ruas.

Alguns dias depois, em casa, desejei em voz alta o mal aos proprietários da academia que fica de frente com meu prédio e com a qual tenho sérios problemas, por fazerem imenso barulho todos os dias até as 21h. Minha esposa mesmo me olhou com receio e me disse: "olhe bem o absurdo que você está falando".

Fiz exatamente o oposto do que Deus espera de mim., para minha vergonha e desserviço ao Reino.

Não me vejo como sal e nem como luz. Não vejo em mim as qualidades da nova natureza que eu deveria ter adquirido. Não vejo em meu proceder a mudança que dizem que apenas Jesus promove. Se todas essas mudanças no entanto só ocorrem por meio do poder de Cristo, só posso supor que eu nunca o aceitei verdadeiramente - o que me deixa em maus lençóis pois não sei de que outra forma eu deveria aceitá-lo então - ou as mudanças já ocorreram em mim e eu sou incapaz de reconhecê-las.

Há ainda uma terceira hipótese, e penso, seja a mais obvia.

Não sou um idiota. Sei que todos os crentes tem explosões como estas e que todos somos pecadores e que todos falhamos e iremos falhar até nossa ida para a Glória do Senhor, e que nossa vida cristã é essa luta constante pelo aperfeiçoamento no Senhor. Me incomoda muito não conseguir ter o domínio próprio que sempre julguei ser marca registrada do crente, o comportamento manso, o amor incondicional e o proceder virtuoso que faz com que as pessoas vejam Cristo vivendo por meio daquela pessoa. Mas acho que esse é o ciclo natural da vida cristã:

Deus nos aperfeiçoa durante todas as crises pelas quais passamos. Falhamos miseravelmente na maior parte do tempo, no início da nossa caminhada, e a consciência de Cristo surge então para nos confrontar, não como um dedo acusador que demonstra "você pecou" mas sim um abraço amoroso que diz "vá e não peques mais" pois o trabalho de acusação já é feito perfeitamente por nós mesmos, pelas pessoas a nossa volta e pelo próprio Satanás, nos esmagando em culpa.

Caminhar com Jesus é um aprendizado, uma evolução, uma mudança gradual em nós rumo ao formato de Cristo. Tudo nesse mundo é temporal, as coisas não ocorrem imediatamente e toda obra leva seu devido tempo. Deus construiu nossa realidade física dentro destes princípios, e mesmo tendo todo o poder para agir fora dessas regras, acho que Ele não faria isso, pois tais regras tem sua razão de existir.

Me incomoda ver como eu devia ser e constatar no quão longe estou de me aproximar dEle, e entristecê-lo, e não conseguir demonstrar por meio da minha vida a verdade que Ele é, e com isso, desestimular pessoas a se aproximar dEle por acharem que, por falhar, eu não creio ou aquilo em que creio é falso.

Não pretendo desistir daquele que nunca desistiu de mim. Porque eu sei que essa é a vontade do Senhor: não que eu peque, mas que eu me deixe mudar, dia a dia, pela percepção de meus pecados e de como meu proceder deveria ser. E se hoje sou uma luz pálida, uma chama frágil que tremula na escuridão e que muitas vezes parece não iluminar nada, sei que Deus está ao meu lado e sempre buscará alimentá-la para que se torne cada vez mais brilhante.

17 de fevereiro de 2014

A PERSEGUIÇÃO PELA ÓTICA DAS BEM-AVENTURANÇAS

William-Adolphe Bouguereau (1825-1905)
"The Remorse of Orestes" (1862)
obtido na wikipedia

Meu pastor - Rubens Santos, titular da Igreja Batista Memorial do Centenário em Campinas – vem expondo uma série de pregações sobre as bem-aventuranças (Mateus 5) , destacando como elas são características do crente, e não comportamentos que devemos buscar de forma artificial. A mudança vem de Deus, afinal.

Alguns domingos atrás ele falou sobre a perseguição, e tomei notas sobre o que foi falado por achar o assunto extremamente pertinente aos crentes em Jesus, e a mim mesmo especialmente.

“Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus" Mateus 5:10

Há uma interpretação normalmente equivocada com relação e este versículo. Muitas pessoas pensam que simplesmente por serem crentes, qualquer perseguição que sofram em suas vidas é uma perseguição “por causa da justiça”. E isso é um erro.

A perseguição citada nos versículos não ocorrem devido a decisões próprias da pessoa,  ou devido a equívocos e erros nossos, à más ações e problemas criados por nós mesmos.

Na ótica das bem-aventuranças não somos perseguidos por nosso fanatismo religioso ou por nosso fundamentalismo, nem por sermos puritanos e arrogantes por nos acharmos donos da verdade, juízes da humanidade e impositores de doutrinas.

Todas essas coisas geram perseguição contra nós,  mas esta perseguição não ocorre por causa de Cristo, mas sim por nós mesmos.  Perseguição nesse sentido (fora das bem-aventuranças e do significado bíblico) é decorrente de um ato particular e pessoal, uma resposta natural a uma causa natural, e não caracteriza a dita perseguição “por causa da justiça” de forma alguma.

Doenças, perseguições políticas, bullying, assédio moral no trabalho e preconceito racial, sexual e religioso estão nesta mesma categoria. É algo que ocorre com qualquer pessoa, seja ela crente ou não.

A perseguição citada nas bem-aventuranças diz respeito a uma perseguição muito clara: perseguição por ser cristão. Entenda bem: por SER CRISTÃO, e não por se declarar ou achar que é cristão. Por ter o comportamento de Cristo de fato! Por sermos pessoas que buscam a Deus genuinamente, que se comportam conforme a vontade de Deus verdadeiramente, ou seja,  ocorre com aqueles que SÃO conforme o coração de Deus.

A perseguição ocorre com aqueles que entendem o que significa amar a Cristo, e que o amam totalmente. Este amor gera um comportamento que por sua vez gera a perseguição, “um comportamento de justiça”. Somos perseguidos por sermos diferentes do mundo, por sermos como as bem aventurança revelam que o crente deve ser (e não emular). Mas por que?

O comportamento genuinamente  cristão incomoda as pessoas que não são cristãs. Elas não suportam ver um comportamento genuinamente cristão pois isso demonstra a elas com elas mesmas estão afastadas de Deus, e do que podem ou estão perdendo.

Esse comportamento não é um comportamento meramente caridoso e benevolente. Diversas pessoas não crentes são boas e caridosas, realizando importantes trabalhos, melhorando a vida de várias pessoas em nossa sociedade em uma atitude que precisa ser estimulada. Na verdade o que incomoda as pessoas e gera a perseguição é meramente o relacionamento pessoal e afetuoso que um crente tem com Jesus. A segurança que ele tem sobre as certezas que só Deus trás, a fé, a esperança, o ato de entregar a vida a Deus, de ser como as bem aventuranças falam que o crente é. O ato de viver debaixo da graça de Deus e crer de todo coração.

Enfim, como crentes devemos ser diferentes do mundo. Autênticos, nunca falsos no comportamento. Crentes de coração. Isso trará perseguição sobre nós, mas como dito nas bem aventurança:

“Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus" Mateus 5:10

20 de janeiro de 2014

DEPRESSÃO E IDENTIDADE

Eu sabia que a depressão seria uma espécie ferida que nunca cicatrizaria. Que estaria comigo todos os dias, espreitando alguma fraqueza para poder se alimentar de novo e voltar a ter o tipo de prioridade que tinha em minha vida até alguns anos atrás. Me mudando novamente, fazendo com que eu deixasse de ser eu mesmo mais uma vez. Eu era uma pessoa e passei a ser uma segunda, e agora essa segunda passou a ser uma terceira. Não sei mais quem sou, e como tal não sei o que quero, nem o que aspiro. Não tenho sonhos, desejos, gostos ou propósitos. Estou perdido dentro de um labirinto em mim mesmo.

A depressão me parecia distante até algum tempo atrás. Pelo menos até hoje de manhã, quando vinha andando para o trabalho e, em um lugar muito ruim para se andar, onde a calçada quase não existe e onde eu tenho que andar praticamente na avenida - que é muito movimentada - e observei os carros passando a uma velocidade grande bem próximos a mim e pensei: e se eu "escorregasse" e caísse na frente de um desses carros? Tudo estará resolvido, toda a minha dor desaparecerá, eu não estarei mais vivo e nenhum questionamento e aflição permanecerão.

A ideia pareceu fazer sentido por alguns instantes, que duraram uma eternidade em minha mente.

Pensei se sentiria dor ao ser atropelado por um carro a 80km/h ou se eu sentiria apenas uma inércia confortante, um silêncio e uma paz que não encontro em lugar, momento ou pessoa algumas.

Obviamente constatei que sentiria dor - muita. E ainda haveria o risco de não morrer mas sim ficar aleijado, entrevado em uma cama, sofrendo por anos, definhando, e arrastando minha família comigo.

Isso me fez desistir.

Como já li em muitos lugares, suicídio não é para os fracos e covardes. Uma pessoa precisa de muita coragem para dar fim a própria vida - uma coragem que eu não tenho e nem sei se um dia terei. E se a pessoa tem coragem para isso, por que não tem coragem para algo menos drástico, como por exemplo dar uma guinada em sua vida e mudar o que tanto lhe aflige?

Porque essa pessoa não tem poder para mudar o que lhe aflige já que o que lhes afligem é a própria vida, as próprias pessoas, o próprio conceito de viver.

Me sinto oco novamente. Vazio, repleto de dor, aflição, ansiedade, auto-piedade, abandono e ódio. Muito ódio. Ódio contra o mundo e contra mim mesmo. Ódio devido a impotência diante de tudo. A incapacidade de resolver qualquer coisa, de solucionar o menor dos problemas, de ser alguém... alguém que nunca serei. Ódio das pessoas por vê-las bem e felizes (algo que me parece ofensivo e patético). Ódio por me sentir totalmente diferente delas, inferior. Ódio por não ser capaz de sentir e viver e apreciar o mundo. Ódio, ódio, ódio... apenas ódio por me ver preso em armadilhas mortais, amarrado a situações das quais poderia me desamarrar mas com medo das conseqüências não o faço. Ódio por ser um covarde, por temer mudanças, por não ser seguro de quem sou e do que posso fazer e de como me sairei. Ódio, apenas ódio... e vergonha, e medo, e pânico, e nojo de mim mesmo.

1 de janeiro de 2014

UM AUTÊNTICO ALIENÍGENA

Illustrations from the Nuremberg Chronicle, by Hartmann Schedel (1440-1514)
Um autêntico alienígena. É assim que me sinto em momentos como este - réveillon de 2013 para 2014.

Com a existência do Facebook fica mais fácil experimentar esta sensação. Vejo todos compartilhando fotos e comentários sobre como estão curtindo o momento, festejando com amigos e familiares na praia ou em suas casas ou em shows da virada, queimando fogos de artifício, comendo, bebendo e conversando. E eu aqui, em casa, escrevendo isso, jogando, conversando com minha esposa, ouvindo música, ou seja, passando este período tentando ao máximo possível ignorar o que meu preconceito classifica como reação exagerada de felicidade incondicional, mas que na verdade é apenas a expressão da liberdade individual que cada um tem em comemorar um acontecimento como lhe convêm dentro dos limites legais - e se todos aceitam uma convenção social que lhes diz para usar roupas brancas, queimar fogos de artifício e se comportar de uma certa forma, não tenho o direito de julgar, mas me reservo a opção de não adotar a conduta convencional - não para ser intransigente, mas sim por não gostar desta.

Voltando ao Facebook, vejo postagens das pessoas se vestindo e maquiando super bem, se produzindo, tirando fotos para mostrar como estão felizes, como tem vidas divertidas, como são bacanas e como a depressão, estresse, miséria psicológica, intriga, maldade, pressão, medo, abandono e tudo o mais podem ser esquecidos por uns instantes. E eu aqui, de pijamas, tentando acalmar meu cachorro que está todo aflito com os barulhos dos rojões, e fazendo questão de viver este momento exatamente como vivo todos os demais.

Sei que momentos como este são importantes do ponto de vista psicológico e emocional. Ciclos são importantes e a comemoração destes (para a maioria das pessoas) é algo muito importante. Não acho nada disso errado. Eu mesmo devia estar na igreja - íamos passar o ano novo lá em uma reunião de oração e comunhão com outros membros e que deve ter sido maravilhosa, mas não fomos por receio das ruas, repletas de pessoas bêbadas guiando carros e porque não bandidos a espreita de pessoas desavisadas indo e vindo de comemorações, totalmente distraídas. Ficamos em casa, como sempre temos ficado há anos. Esperamos os fogos passarem, e então vamos dormir. Este anos fizemos um brinde com Calpis.

Eu sei que sou recluso, e esse tipo de comportamento se repete nas demais festividades coletivas, ou mesmo nas particulares que são comuns a todos (aniversários por exemplo). Eu ão tenho a necessidade de comemorar estas coisas com a mesma importância e intensidade que o coletivo parece precisar - ou desejar. Não vejo motivos para comemorar entusiasticamente uma passagem de ano além de fazer uma simples reflexão do que passou no ano, aprender com os erros e acertos, ser grato a Deus por tudo e no máximo pensar em algumas coisas que gostaria de fazer no ano seguinte, pedindo a orientação de Deus sobre isso e sua benção de acordo com sua vontade.

Na verdade já estou acostumado a ser "estranho" neste sentido - e muitas vezes me sentir estranho por mim mesmo, sem um julgamento ou sensação de julgamento de uma outra pessoa. Ou seja, eu mesmo me acho estranho por não ser como os demais.

Por exemplo: a própria comemoração do Natal já me incomoda há bastante tempo e eu não compartilho do senso comum quanto a como ela deve ser experimentada. O mesmo diz respeito a maioria do modo operante em quase todas as coisas. Eu tenho opiniões próprias quanto a muitas coisas, mas que vão contra o senso comum.

Isso me causava, na infância e adolescência, uma sensação de deslocamento imenso. Isso evoluiu para revolta por muitos anos, e creio que meus familiares se lembram dessa época com medo pois eu era bem revoltado. Depois isso evoluiu para indiferença, e hoje, para o que acho ser o início de uma compreensão mais equilibrada: sou um ser humano como outro qualquer, mas que está fadado a viver com o constrangimento de ser sempre visto como diferente porque de fato eu sou.

Assim, consigo imaginar um pouco como um alienígena se sentiria disfarçado entre nós.